quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE DA PESSOA COM SÍNDROME DE DOWN


Marina da Silveira Rodrigues Almeida
Consultora em Educação Inclusiva
Psicóloga e Pedagoga Especialista
Instituto Inclusão Brasil
marina@iron.com.br


A idéia fundamental do artigo é afirmar que uma pessoa com deficiência intelectual tem direito a uma educação que englobe todos os vértices de sua personalidade, incluindo sua vida afetiva e sexual desde sua infância até senilidade.
Defendemos a visão sócio-antropológica da pessoa com síndrome de Down, aquela que precisa ser acolhida ao nascer, tenha um papel na família e na sociedade, tenha um projeto de vida e tenha uma educação de apoio.
As pessoas com deficiência intelectual vivem uma eterna infância impedidos de desenvolverem sua personalidade a seu ritmo, de forma real. E por terem suas dificuldades de compreensão cognitiva, se torna mais importante uma educação afetiva-sexual formal, porque através desta mediação os ajudam a conseguirem interiorizar as condutas necessárias para seu crescimento de sua personalidade e autêntica felicidade.

O estigma da falta de inteligência, defeito, falha, ou déficit, impõe às pessoas com deficiência a condição de seres desacreditados socialmente, o que as reduz a uma espécie de destino pré-determinado. Assim, para além da deficiência objetivamente detectável, há uma produção social da subjetividade de deficiente. No cotidiano, as pessoas são guiadas pelo imediato e pelas referências locais. A presença de uma deficiência suplanta qualquer concepção que se pretenda integral do ser humano.

Socialmente, a deficiência teria mais importância que as atitudes dos indivíduos, suas ações e decisões não produziriam transformações no real, porque são vistos como seres humanos incapazes de produzir. O critério que é tomado para afastá-los da normalidade obedece a uma visão histórica da realidade, desconsiderando-se inventos e instrumentos já produzidos pela cultura humana.
O paternalismo benevolente tem sido durante anos um fator impeditivo que mantém cronificado uma cultura da infantilização das pessoas com deficiência intelectual e no caso das pessoas com síndrome de Down mais constatado. As relações sociais são convertidas em um grande esteriótipo em que já se sabe o que é esperado destas pessoas, portanto não conseguem lograr sucesso, não há expectativas possíveis dentro da realidade, são impedidos de terem suas próprias opiniões, de poderem ter sua sexualidade e afetividade com autonomia e independência. O que encontramos é que os outros (pais, educadores, tutores, profissionais) decidem o que é melhor para elas, o que será melhor para suas vidas e até onde deverão evoluir como pessoas. Portanto, desenvolve-se um contexto cultural no qual estas pessoas com deficiência intelectual são impedidas de crescerem, de terem expectativas de vida como sujeitos autônomos.
Falar da sexualidade das pessoas com deficiência intelectual é um terreno polêmico, desafiador e ainda cheio de dúvidas, que aos poucos estamos a desbravar, partindo do princípio de que as pessoas com síndrome de Down, têm o direito de serem consideradas normais dentro de suas singularidades e necessidades reais. Precisam ser respeitadas e apoiadas em seu rol de compreensão e entendimento da vida, de seus desejos e de seus sonhos.

Precisamos cada vez mais, que tanto os profissionais, os pais, irmãos e todos os envolvidos com pessoas com deficiência intelectual, percebam que o tratamento da temática sobre sexualidade seja encarada de forma natural e possa ser mediada ao longo da vida destas pessoas.

Todos os indivíduos têm sentimentos, atitudes, sobre a sexualidade, mas cada um tem sua experiência única, influenciada por seus aspectos subjetivos, sua cultura, valores apreendidos e ambiente familiar.

Partimos de um conceito amplo de sexualidade, que está além das relações genitais. Consideramos os afetos, as relações pessoais, o desenvolvimento de sua personalidade, a auto-estima, sua experiência com seu corpo, sua identidade, seus desejos, ter amigos, ter confidências, portanto aspectos estes que estão dentro de uma estrutura da sexualidade e afetos humanos.

O corpo é uma mediação importante, do amor, ternura, simpatia, e precisamos desmistificar e desculpabilizar o prazer sexual com sentimentos repressivos que tem como origem as tradições religiosas.

Vivemos também continuamente no tabu da sexualidade, apensar de toda contemporaneidade e avanços científicos da mídia. A escola, os educadores ainda resistem em abrirem espaço para a educação sexual de forma saudável e dentro de situações vinculadas a afetos. Estas resistências estão encobertas por mecanismos de defesa recheados de preconceitos, negação das diferenças e singularidades das pessoas. E tudo aquilo que não se considera dentro de uma padronização fica excluído. Geralmente o que encontramos são enfoques que envolvem a biologia, reprodução, os hormônios sexuais e contexto do funcionamento dos órgãos sexuais. Por outro lado, é paradoxal como a televisão veicula todo rol de cenas e imagens relativas à sexualidade de maneira a banalizar o seu contexto afetivo-sexual entre as pessoas.

Também há uma falsa crença, de que se os pais e ou educadores e profissionais afins, iniciarem uma educação sexual para as pessoas com deficiência intelectual, poderão “despertar” o adolescente com ou sem deficiência a práticas e interesses voltados a sua sexualidade, como masturbação, namoros, etc. Isso não passa de mito equivocado, visto que a evolução sexual do ser humano vai orientá-lo de uma forma velada ou desvelada a chegar a estas mesmas investigações relativas à suas mudanças corpóreas e seus desejos sexuais e amorosos.

A questão do gênero feminino e o paternalismo ainda é muito comum em nossa cultura machista, observamos que para o jovem com síndrome de Down não é “permitido” e aceito que poderá ter suas primeiras experiências sexuais na adolescência, enquanto que a jovem com síndrome de Down, não lhe é “permitido” ou aceito, pelo fato de carregar a condição feminina, e também está presa ao mito cultural da virgindade e ao risco da gravidez indesejada. Há ainda um grande preconceito nas experiências sexuais femininas comparadas com as masculinas e todo tabu e desdobramentos envolta disto, como por exemplo, o uso de método contraceptivos como preservativos, anticoncepcionais, etc.

Encontramos também os paradoxos da repressão da sexualidade das pessoas com síndrome de Down descritas como ora anjos, assexuados, bonzinhos, meigos, infantis, ingênuos ou ora demônios sedutores como tendo a sexualidade exacerbada, mais aflorada, agressiva, etc. Essa dicotomia entre anjos x demônios é outra forma de defesa que as pessoas geralmente expressam através da negação da expressão sexualidade das pessoas com deficiência intelectual como pessoas humanas. Portanto, esta atitude, está fundamentada no princípio de que pessoas com síndrome de Down não tem domínio sobre seus corpos, não tem autonomia, não conseguem controlar seus comportamentos sexuais como algo pensável afetivamente e adequados socialmente. Ledo engano sabemos hoje, que as pessoas com síndrome de Down se bem apoiadas em sua sexualidade poderão ter sua percepção de seu corpo, dos cuidados necessários adequando-se as normas sociais de convívio.

Outro fato que constatamos, são os representantes simbólicos, as roupas e acessórios de adolescentes são menos presentes nas pessoas com síndrome de Down. Vestem-se ainda com roupas infantilizadas e ou com roupas que possam garantir o impedimento aos órgãos genitais para não se masturbarem.
A pessoa com síndrome de Down se torna asujeitada aos modelos identificatórios de papeis infantilizados, pois é isso que sobra para sua existência no mundo. Qualquer outra forma de expressão poderá ser punida, rejeitada ou medicada por se entender como agente patológico. Acabam tendo uma relação com o mundo de maneira a agradar as expectativas das pessoas, por não encontrarem espaços de relações vinculares que possam expressar sua existência própria.

Infelizmente, ainda o jovem com síndrome de Down, não tem sua voz escutada nestes momentos de decisões frente a sua sexualidade, os pais, profissionais e educadores, via de regra, decidem o que é melhor para eles, impedindo que eles possam desenvolver seus próprios pensamentos e críticas sobre o seu corpo, desejos e afetos. Este controle cultural está inserido dentro do repertório de preconceitos frente às pessoas consideradas deficientes intelectuais, dentro da relação de incompletude. Se “falta” inteligência, outros deverão pensar e decidir por eles. Portanto, por esta “falta”, de processos cognitivos as pessoas com deficiência intelectual são impedidas de terem sua autenticidade na cultura. Continuam sendo tuteladas em suas vontades e opiniões.

Hoje temos um movimento que vem a cada dia se fortalecendo, chamado de “autodefensoria”. Pessoas com deficiência intelectual conseguem e podem exercer seu poder de voz e representatividade enquanto cidadãos autônomos, ativos e participantes. Contudo, ainda é um processo que está sendo construído na sociedade paulatinamente.

Obviamente que casos de pessoas com comprometimento graves devem ser levados em consideração e não devemos generalizar, bem como também não poderemos cair no extremo de super potencializar a normalização das pessoas com deficiência intelectual como se nada tivessem de dificuldades que impedissem de gerenciar suas vidas sem nenhum apoio ou mediação, cairíamos nos extremos. Falamos aqui de mediação da realidade humana e ponderação frente à diversidade humana, não de atitudes e ações radicais homogenizantes.

O aparecimento da masturbação, menstruação e polução noturna são sinais que abrem novas feridas e lutos que os pais precisam elaborar junto com seus filhos. Para superarem esta nova etapa, pais e filhos precisam de um manejo educativo sexual-afetivo, que permita o desenvolvimento da identidade da pessoa com síndrome de Down como adulta, por outro lado os pais precisam rever suas próprias questões acerca da sua própria sexualidade, seus valores, suas expectativas de futuro. Quanto mais resistirem em ajudar seus filhos a ingressarem no mundo dos adultos, mais levarão os filhos a se tornarem dependentes e infantilizados na estrutura de sua personalidade.
Muitas vezes observamos as crises de depressão que acometem estes jovens com síndrome de Down ao atravessarem este momento da adolescência, precisam de cuidados e apoios para conseguirem desenvolver melhor suas habilidade sociais, auto-estima e construírem medidas preventivas importantes para sua sexualidade.

Temos que encarar com realismo, que há ausência de oportunidades sociais que são oferecidas a pessoas com síndrome de Down, são bem menores as equiparadas as demais pessoas, como por exemplo, o convívio com amigos, saírem juntos, poderem comprar suas próprias roupas e acessórios, poderem escolher suas músicas favoritas. Situações aparentemente cotidianas, mas são exatamente estas atividades que são importantes para a construção da identidade sexual do ser humano. Estas ações estão ligadas, a capacidade de sentirem-se felizes, terem suas próprias escolhas pessoais, sentirem-se bem consigo próprios, terem suas próprias relações com seus amigos. Portanto, a melhor maneira das pessoas com síndrome de Down expressarem seus desejos, seus sentimentos sexuais é falando sobre o assunto, através de um campo adequado de uma educação sexual-afetiva, aonde possam ser respeitados e escutados.

Estamos falando de uma educação sexual transdisciplinar, que atravesse as questões da biologia, psicologia, cultura, valores, morais e éticos e religiosos, dando ênfase a maturidade psicoafetiva e saúde mental das pessoas, possibilitando um nível de comunicação na esfera da expressão da sexualidade.
A educação sexual está sendo entendida aqui, como um enfoque para potencializar as dimensões do corpo e suas relações com as demais pessoas. Ajudando as pessoas com síndrome de Down passarem a buscar uma necessidade de reconhecimento do outro e ter uma relação amorosa, promovendo crescimento da personalidade adulta (auto-estima, autoconfiança, e controle interno), expandindo os processos afetivos mediadores (empatia, relações de apego e amizade) e mediadores cognitivos (capacidade de poder estar no lugar do outro, conceitos de valores, tomada de decisões e solução de problemas) Em síntese, promover habilidades sociais e interpessoais saudáveis.
Podemos destacar alguns objetivos da Educação Sexual-afetiva para os jovens com síndrome de Down:
· Facilitar as relações interpessoais e atitudes com os demais, adequando a seus ideais, valores, sentimentos e forma de ser.
· Ensinar a aceitar o outro e a si mesmo como é, como suas particularidades e diferenças, mas sendo visto mais como uma forma de aprendizado do que como obstáculo.
· Ajudar o descobrimento da vida sexual como natural do ser humano, facilitando sua inclusão social e afirmação pessoal.
· Desenvolver um clima de comunicação e confiança entre os sexos, orientando e facilitando o contato mútuo entre os gêneros e suas singularidades.
· Oferecer possibilidades de encontro que facilitem a convivência social e saudável, para que se desenvolva um crescimento maduro e positivo, gradual e continuo.
· Trabalhar a imagem corporal, cuidados pessoais e formas preventivas de contraceptivos.
· Oferecer situações aonde possam exercer autonomia, independência e confiança em si mesmo.
· Apoiar os comportamentos adequados e respeitosos com as pessoas.
· Ajudar a enfrentar as situações difíceis.
· Discutir questões sobre o que é publico e privado
· Discutir as questões sobre: namoro, relações sexuais,
Muitos dos problemas associados ao comportamento abusivo estão relacionados a falta de educação sobre sexualidade e normas sociais. Se as informações básicas forem esclarecidas sobre o corpo, sobre a diferença entre os contatos adequados, abuso de drogas, sobre as diferenças entre comportamento público e privado podem diminuir a incidência de carga conflituosa e comportamentos embaraçosos e mais ainda deixar de considerar a pessoa Down como um ser infantil.
Bibliografía:
BOFF, L. Nova Era: a civilização planetária. 2.ed. São Paulo: Ática, 1994.
BOURDIEU, P. A Economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974.
ENGUITA, M. F. Trabalho, escola e ideologia: Marx e a crítica da educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1993.
GHIRALDELLI Jr., P. (Org.). Infância, escola e modernidade. São Paulo: Cortez, 1997.
PESSOTTI, I. Deficiência mental: da superstição à ciência. São Paulo: T. A Queiroz, 1984.
SKLIAR, C. (Org.). Educação e exclusão: abordagens sócio-antropológicas em educação especial. Porto Alegre:
Mediação, 1997.
WERNECK, C. Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva. Rio de Janeiro: WVA, 1997.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

DIA INTERNACIONAL DA SÍNDROME DE DOWN


INCLUSÃO PARA A AUTONOMIA


O Dia Internacional da Síndrome de Down foi proposto pela Down Syndrome International como o dia 21 de Março, porque esta data se escreve como 21/3 (ou 3-21), o que faz alusão à trissomia do 21. A primeira comemoração da data foi em 2006 e, nesse ano a comemoração coincide com os 50 anos da descoberta da trissomia do cromossomo 21 pelo Dr Jerome Lejeune.INCLUSÃO PARA A AUTONOMIA resume para o que trabalhamos, esperamos e devemos oferecer aos nossos filhos, filhas e parentes com Síndrome de Down. Um ano depois da ratificação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, reafirmamos o direito à Inclusão Social plena de todas as pessoas. Inclusão essa garantida pela lei e que deve ser exercida e cumprida pelos governos e por toda a sociedade. A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down ,suas associadas,instituições e grupos parceiros, organizarão uma semana de eventos em todo o Brasil em comemoração a data, aproveitando para difundir ainda mais o conceito de inclusão que leva à autonomia. Inclusão plena de todas pessoas com síndrome de down na sociedade, desde o nascimento e em todos os lugares é o que queremos e estaremos propagando durante essa semana contato: presidentefbasd@gmail.comhttp://fbasd.blogspot.com/ BRASÍLIA A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down-FBASD, convida todas as suas associadas,instituições e famílias, para Sessão Solene na Câmara Federal em Brasília,a se realizar no dia 30 de março de 2009, às 10hA FBASD convida a todos para a inaguração do Corredor Cultural, com exposição de arte e cultura e material de divulgação das associações, no dia 30/3,às 18h30m, na sede da Federação em Brasília.A FBASD convida a todos e todas para participarem dos eventos de seus Estados em comemoração ao dia internacional, convidando amigos e a sociedade em geral. Vamos aproveitar essa data para promover uma festa inclusiva,reunindo pessoas com e sem síndrome de down e brindando à inclusão. Inclua-se e seja bem vindo! Associação DFDown 16/03- 2ª Feira - Exposição de pinturas e fotografias feitas por artistas com síndrome de Down - Local: Museu Nacional e Biblioteca Nacional - Horário: 19:30h 17/03 - 3ª Feira - exibição do filme do "luto à luta" com debate e elaboração de documentoLocal: Universidade Católica de Brasília - Horário: 09:00h 18/03 - 4ª Feira - Fórum de Discussão - Cromossomo XXI - 50 anos depois - Local: Auditório dois Candangos - UNB - Brasília/DF Horário: 08:00h às 17h30 19/03 - 5ª Feira - Sessão Solene em comemoração ao Dia Internacional da síndrome de Down e 50 anos da descoberta da trissomia no cromossomo XXI - Local: Câmara Legislativa do Distrito Federal - CLDF - Horário: 19:00h 20/03 - 6ª Feira - Palestra: "Os avanços das pessoas com síndrome de Down" - Dra. Elivra Garcez - Local: Hospital das Forças Armadas - HFA - Horário: 11:00hs 21/03 - Sábado - Caminhada em comemoração ao Dia Internacional da síndrome de Down e aos 50 anos da descoberta da trissomia no Cromossomo XXI - Local: Parque da Cidade - Brasília/DF - Horário: 09:00hsRIO DE JANEIROInstituto Meta Social, Sociedade Síndrome de Down, Forum de Inclusão Permanente-UERJ,Grupo RJDown,Projeto Rio Down,Rede Inclusiva e parceiros Caminhada Inclusiva em comemoração ao dia internacional da Síndrome de Down e aos 50 anos da descoberta da trissomia do cromossomo 21.INCLUSãO PARA A AUTONOMIA Praia de Ipanema Dia 22/3 às 9h Sessão Solene na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em comemoração ao Dia Internacional da Síndrome de Down e aos 50 anos da trissomia do cromossomo 21"Inclusão para a Autonomia"Apoio:Comissão de Direitos Humanos da ALERJ24/3 às 18h Encontro do Forum de Inclusão Permanente em homenagem ao Dia Internacional da Síndrome de Down na UERJTema:Inclusão para a autonomiaEncontro na secretaria municipal da pessoa com deficiência do Município de Caxias.ITABUNA - BAHIA Pogramação do Aprendendo Down (Programa de Educação Continuada da UESC) comemorando o Cinquentenário do Prof. Jerôme Lejeùne e o Dia Mundial pela S. de Down Dia 16/03 No Auditório Paulo Souto - Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Ilhéus-BA 17:00h - Boas Vindas - Pro Reitoria de Extensão da UESC 17:15h- - Profa. Celia Kalil Mangabeira - Presidente do Núcleo Aprendendo Down-Conhecendo mais o Prof. Jerôme Lejeùne. 17:30h - Profa Maria Tereza Mantoan: ''Uma Escola das Diferenças e não uma Escola para os Diferentes" 20:00h. Ballet da Academia Corpore - Direção das Profas Dayse Batista e Lidamara Bonfim - Psiquê, A lenda do Amor. Participação do Aprendendo Down Crianças: A dança das bailarinas (Símbolo Pureza e Amizade)Adolescentes: Salsa (Alegria e Amizade) Dia 21/03 - Caminhada pelo Centro. (Itabuna. Ba). Inclusão para Autonomia. Acredite na Trissomia!! SÃO PAULO Carpe Diem,ADID, Instituto Meta Social,Grupo Happy Down, Associação das Voluntárias do HIDV Dia 19 de Março 19h30Sessão Comemorativa Dia Internacional da Síndrome de Down Câmara Municipal de São PauloPalácio Anchieta - Viaduto Jacareí, 100 - Bela Vista - São Paulo - SP 21 e 22 de MarçoSIMPÓSIO DE SÍNDROME DE DOWN: CINQUENTENÁRIO DA TRISSOMIA DO 21 "Inclusão para a Autonomia"Local: Secretaria do Estado do Direito da Pessoa Deficiente (anexo ao Memorial da América Latina)Endereço: Av. Auro Soares de Moura Andrade, 564 – Portão 10 (Antigo bloco Parlatino) – Barra FundaInformações e Inscrições: www.sindromededown.com.brFax para envio das inscrições: (11) 2537-0557 30 de março, às 19hSessão Solene na Assembléia Legislativa-ALESP, em comemoração ao Dia Internacionalda Síndrome de Down e aos 50 anos da descoberta da trissomia do cromossomo 21."Inclusão para a Autonomia"Av. Pedro Álvares Cabral, 201,às 9h Taboão da Serra - São Paulo Conselho Municipal da Pessoa com DeficiênciaPalestra em Comemoração ao DIA INTERNACIONAL DA SINDROME DE DOWN, com o Tema "INCLUSÃO PARA A AUTONOMIA," Fábio Adiron20.03.2009 - 14h Associação dos Deficientes de Taboão da Serra - ADT Rua Ida Romussi Gasparinete, 126 – Parque Laguna – Taboão da Serra. FORTALEZA 1. Audiência Pública na Assembléia Legislativa. Tema: "Inclusão para Autonomia e o Direito das Pessoas com Síndrome de Down ao Ensino Regular nas Escolas Públicas e Privadas"Data provável: 18/03/2009Apresentações de jovens com SD sobre suas experiências escolares; serão convidados o Ministério Público Estadual (Promotoria de Defesa da Educação e Promotoria de Defesa do Idoso e do Portador de Deficiência), Secretaria Estadual de Educação, Secretaria Municipal de Educação, Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará - SINEPE/CE, Associação Cearense de Pequenas e Médias Escolas - ACEPEME, Associação de Educação Católica do Ceará, CEDEF e entidades ligadas às pessoas com deficiência intelectual (Pro-Down, Existir, UniversoDown, MPcD, APAE, Pestallozzi, Instituto Moreira de Souza, Recanto Psicopedagogico, etc.) 2. Seminário para pais de pessoas com deficiência: "Direitos das Pessoas com Deficiência"Data provável: 20/03/2009, das 14h às 17h, no Auditório do edifício-sede da ECT (Rua Sen. Alencar, 38 - Centro) 3. Cortejo Inclusivo do Maracatu SolarData: 21/03/2009, sábado, saindo às 16h da sede do Maracatu (Av. da Universidade, 2333) e seguindo até a Praça da Gentilândia, na Av. 13 de Maio 4. Sessão Extraordinária na Câmara dos Vereadores de Fortaleza: Inclusão para a Autonomia

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

BRINCANDO SE APRENDE MATEMÁTICA - JOGOS

Marina da Silveira Rodrigues Almeida
Consultora em Educação Inclusiva
Psicóloga e Pedagoga especialista
Instituto Inclusão Brasil
inclusao.brasil@iron.com.br

Os jogos constituem um espaço privilegiado para a aprendizagem e, quando bem utilizados, ampliam possibilidades de compreensão através de experiências significativas que se propõem. Seu caráter lúdico permite que inúmeras relações de naturezas diversas sejam feitas quase incansavelmente, numa quantidade bem maior do que com exercícios e propostas únicas e restritas. Porém o jogo enquanto possível elemento pedagógico não é em si o transmissor de conhecimentos. É preciso um projeto claro que integre o jogo às relações que os alunos estabelecerão no ato de jogar frente aos desafios e ações mentais e materiais que o aluno deverá fazer ao jogar. Nesta instância, o planejamento e a intenção do professor são ações fundamentais para a promoção da aprendizagem. Além disso, os jogos por seu caráter coletivo, permitem que os alunos troquem informações, façam perguntas e explicitem suas idéias, estratégias e concepções numéricas avançando em seu processo de aprendizagem.

1- 50 casas
Material: tabuleiro quadriculado (50 quadrados), fichas ou sementes, 2 ou 3 dados
Conteúdo: leitura e soma de dados, contagem, comparação de quantidadesCada jogador usa um tabuleiro. Um de cada vez joga os dados, soma as quantidades sorteadas e coloca o mesmo número de fichas sobre o tabuleiro. O vencedor é o que primeiro preencher as 50 casas

2- Batalha
material: cartas do baralho – de Ás a 10
conteúdo: leitura de números, comparação
A meta é ganhar mais cartas. Um dos jogadores distribui as cartas: uma para cada participante a cada rodada. Na sua vez, cada jogador abre a primeira carta de seu monte. Aquele que virar a carta mais alta pega todas as cartas para si. Todas as jogadas se repetem da mesma forma até que todas as cartas já tenham sido distribuídas. Se abrirem cartas iguais, os jogadores que empataram devem virar outra carta e aquele que tirar a maior ganha. Pode ser jogado em duplas ou pequenos grupos

3- 7 cobras
material: 2 dados, lápis e papel
conteúdo: soma de dados, leitura e grafia de números
Escreve-se a seqüência numérica na folha de papel (2 a 12). Na sua vez de jogar, o jogador soma os dados e marca com um X o número sorteado. Se a soma der 7, o jogador desenha uma cobra no seu papel. Quem marcar todos os números primeiro, com o menor número de cobras é o vencedor. Quem obter 7 cobras sai do jogo.

4- Cobra:
Material: folha de papel, 1 ou 2 dados, lápis
conteúdo: seqüência numérica, soma, grafia e identificação de numerais
Joga-se em duplas ou pequenos grupos. Cada um desenha uma cobra dividida em pedacinhos onde serão escritos os números (1 a 6 – se for jogado com apenas 1 dado) (2 a 12 se com 2). Na sua vez de jogar, o participante joga os dados e faz um X ou pinta o pedacinho da cobra que contém a quantia sorteada. Ganha quem pintat a cobra primeiro.

5- Jogo dos pontos
material: folha de papel e caneta de cores diferentes
conteúdo: contagem
Pontilhar a folha cuidadosamente na horizontal e vertical de modo a parecer um quadriculado. É um jogo de estratégia para dois ou mais participantes. Cada um na sua vez deve unir dois pontinhos. Só vale um traço por vez. Aquele que conseguir fechar um quadrado deve colocar a inicia do seu nome dentro dele e continua jogando até que não haja mais possibilidades de fechar quadrados. Vence quem tiver fechado a maior quantidade.

6- Quantos patos você tem?
material: 2 ou 3 dados, folha de papel e lápis
conteúdo: soma de dados, seqüência numérica, comparação de quantidades, representação numéricaCombina-se antes de iniciar o número de rodadas. Cada um, na sua vez de jogar, joga os dados e efetua a soma marcando a quantidade obtida na sua folha. Ao final das rodadas, soma-se todas as quantidades obtidas e ganha aquele que obteve maior números de “patos”

7- Quadrado perfeito:
material: 25 quadrados sendo 5 de cada cor
conteúdo: comparação entre cores, seqüência lógica, formas geométricas
Pode ser jogado individualmente, duplas ou trios. O objetivo é formar um quadrado usando todos os quadradinhos recebidos sem, contudo, repetir cores na horizontal, vertical e diagonal

8- Número oculto
material: lápis e papel
conteúdo: comparação de quantidades, seqüência numérica, raciocínio lógico matemático.
Sorteia-se um jogador para iniciar. Este pensará em um número dentro do limite estabelecido pelo grupo (0 a 10 ou 10 a 20, ou 0 a 50, etc) anotando no papel sem deixar ninguém ver. Os outros participantes deverão, um de cada vez, dizer números a serem comparados com o número oculto pensado pelo jogador. O aluno que pensou no número deve dizer se os números ditos pelos amigos são maiores ou menores que o número pensado por ele, até que alguém descubra o número oculto e ganhe o direito de pensar nele, iniciando uma nova rodada.

9-Nunca 10
material: tampinhas de garrafa de cores diferentes ou palitos de sorvete coloridos (2, 3 ou 4 cores), 1 ou 2 dados
conteúdo: soma, noção de unidade, dezena, centena e milhar
Cada jogador, na sua vez, jogará o dado, soma-se a quantidade e pega-se a quantidade de palitos sorteadas. Iniciando com uma cor que representará as unidades(verde, por exemplo). Ao se obter 10 palitos verdes (10 unidades) troca-se por 1 palitos (azul, por exemplo) que representa 1 dezena. A centena é vermelha e o milhar amarelo. No final das rodadas combinadas efetua-se a soma para saber qual o vencedor.

10- O que mudou?
material: cartões grandes com numerais em seqüência.
conteúdo: seqüência numérica, identificação do numeral, noção de quantidade
Os cartões são expostos no chão, ou sobre uma mesa, em seqüência numérica. Toda a classe fica de costas para os cartões e a professora retira um dos cartões. Conta até 3 e todos se voltam tentando descobrir o que mudou. Depois passa a trocar 2 cartões de lugar. Em seguida poderá tirar 2 cartões. As crianças se revesarão para substituir a professora.

11- Classificando as cores
material: 1 dado, cartelas de cores.
conteúdo: noção de cor, de quantidade e de conjunto
As cartelas estão dispostas com a face colorida para baixo. A criança vira uma delas e separa os objetos daquela cor (lig-lig, tampinhas, carrinhos, etc). Não se deve esquecer que a verbalização deve acompanhar constantemente as atividades, e a criança precisa aprender a justificar suas conclusões, pois só assim poderá incorporar o novo conhecimento. O professor deve estimular as reflexões: “Que cor vocês vão separar?”, “Que cores sobraram?”

Blocos lógicos: São compostos de 48 blocos, com quatro variáveis: cor, forma, tamanho e espessura. Existem três cores: vermelho, azul e amarelo. Quatro formas: quadrado, retângulo, círculo e triângulo. Dois tamanhos: grande e pequeno e duas espessuras: grosso e fino.

1- Jogo da adivinhação
material: 1 caixa, objetos variados ou 1 caixa de blocos lógicos.
conteúdo: percepção tátil, contagem, identificação de numerais, cores, formas, tamanho, espessura ...Dividir as crianças em vários grupos e colocar os objetos ou blocos lógicos numa caixa no centro da sala, fechada com uma tampa onde há um buraco, pelo qual passa apenas a mão da criança. De cada grupo uma criança vai à caixa, a sua vez, coloca a mão, “adivinha” o que está sendo pedido (cor, forma, espessura...). Se acertar, leva a peça para seu grupo, marcando ponto. Se errar, recoloca o objeto na caixa. Ao final das rodadas combinadas, proceder a contagem de cada grupo comparando as quantidades.

2- Pipa
material: 1 caixa de blocos lógicos, giz de lousa.
conteúdo: desenvolvimento da estética, noção de cor, forma, espessura, tamanho e quantidade.
A professora trabalha a motivação das crianças, perguntando se elas sabem o que é uma pipa, se já viram uma voando com seu rabo comprido e colorido. Com os blocos podemos construir rabos de pipa muito bonitos. A criança pega um bloco na caixa, fala tudo o que sabe sobre ela e em seguida coloca sobre o rabo desenhado pela professora. Isto vai formar uma seqüência longa no chão da sala. Proceda o registro escrito dessa atividade.

3- Jogo cor e quantidade
material: cartelas de cores, 1 dado, pinos coloridos (ligue-ligue)
conteúdo: noção de cores e quantidade.
A professora apresenta uma caixa com as cartelas coloridas. A criança joga o dado e pega uma cartela. Ela deverá pegar os pinos de acordo com o que sair (por exemplo, se ela tirar uma cartela verde e no dado tirar 5, deverá pegar 5 pinos verdes). Ganha o jogo quem tiver mais pinos depois de terminada a ultima rodada combinada.

4- Verdade ou mentira?
material: 1 caixa de blocos lógicos
conteúdo: construção de conceitos lógicos, noção de número, seqüência numérica, contagem.
A classe é dividida em duplas, ou pequenos grupos. Numerar os grupos. Tirar a “sorte” pra ver quem começa. Em seguida a professora esconde os blocos atrás de um anteparo, pega uma figura, dirige-se a cada grupo (um de cada vez) e diz um absurdo. Por exemplo: estou segurando uma peça vermelha e azul. Verdade ou Mentira? As crianças devem decidir, se a professora diz a verdade ou mentira. Ganha 1 ponto o grupo que acertar a resposta. Se o grupo errar, o próximo grupo tem o direito de responder. Se esse também errar, passa a vez para o próximo. (a professora sempre respeitará a ordem numérica)

Para os jogos 5, 6, 7, 8 e 9, a professora procederá assim: Divide a classe em dois grupos. Espalha os blocos lógicos sobre uma mesa e posiciona os grupos, em fila, a uma boa distancia da mesma. A professora fica atrás da mesa, de forma que fique de frente para seus alunos. Ela sorteia uma das fichas e o primeiro da fila de cada grupo deverá correr até a mesa e pegar o que se pede. Ganha 1 ponto o grupo que conseguir primeiro achar a figura. No final contam-se os pontos de cada grupo.

5- Pequeno ou grande?
material: blocos lógicos
conteúdo: conceito de espessura, noção de quantidade

6- Jogo da forma.
material: 4 cartelas, cada uma com o desenho de uma figura (quadrado, circulo, triangulo e retângulo) conteúdo: conceito de forma, noção de quantidade, contagem.

7-Jogo da cor
material: 3 cartelas de cores primárias
conteúdo: conceito de cor, noção de quantidade, contagem.

8- Grosso ou fino
material: 1 cartela com um risco grosso e 1 com um risco fino
conteúdo: noção de espessura, quantidade, contagem

9-Jogos diversos: A partir de agora a professora trabalha 2 ou mais conceitos juntos.
material: cartelas de cor, forma, espessura e tamanho
conteúdo: noção de cor, forma, tamanho, espessura, contagem, quantidade.
A professora agora levantará 2, 3 ou 4 cartelas e a criança deve procurar o bloco correspondente.

10- Jogo das 11 cartelas
material: cartelas de cores (3), cartela de formas (4), cartelas de tamanho (2) e cartelas de espessura (2)
conteúdo: cor, forma, tamanho, espessura, contagem, quantidade
A professora dispõe as cartelas com a face para baixo e uma criança vira uma. Todas as peças com aquela característica deverão ser separados. Numa etapa seguinte, serão virados dois cartões, depois 3 e depois 4. Essa atividade levará a criança a refletir sobre o fato de que dois opostos não podem existir simultaneamente, caso ela tire as cartelas grosso e fino simultaneamente, por exemplo.

11- Jogo com tabela de atributo
material: 1 cartela para cada criança, blocos lógicos
conteúdo: discriminação visual, conceitos de cor, forma, espessura e tamanho.
A professora entrega 1 cartela para cada criança e em seguida 1 bloco que será analisado. A criança deverá fazer uma ficha quadradinho correspondente aos atributos daquela peça.
Exemplo de tabela (da esquerda para a direita: vermelho, azul, amarelo, triangulo, quadrado, circulo, retângulo, grande, pequeno, grosso, fino)


12- Jogo Síntese
material: cartelas como as usadas no jogo anterior
conteúdo: os mesmos do anterior
A professora entrega uma ficha para cada crianças, só que dessa vez ela marca os atributos e a criança procura a peça correspondente.


13- Cópia
material: 2 caixas de blocos
conteúdo: cor, forma, tamanho, espessura, discriminação visual, seqüência lógica
A classe é dividida em 2 grupos. Dois alunos sentam frente a frente, cada uma com um jogo de blocos. A primeira equipe monta uma série de 5, 6 blocos e a segunda equipe terá que copiá-la, usando as peças com os mesmos atributos.

14- Jogo da seqüência lógica
material: blocos lógicos
conteúdo: especifico da seqüência
A professora dispõe as peças numa mesa e monta uma seqüência, por cor, por exemplo: vermelho, amarelo, azul, vermelho, amarelo, azul, vermelho .... Pedir às crianças que observem o que tem de especial nessa cobra. Se as crianças não conseguirem perceber a seqüência, pode-se colocar um cartão com mancha de cor acima de cada bloco. Isto fará com que se isole o critério cor, uma vez que os blocos apresentam todos os critérios simultaneamente, o que pode gerar a dificuldade de percepção da seqüência. Quem conseguir colocar suas peças primeiramente, será o vencedor. As seqüências podem variar:
formas: um triângulo, um quadrado, um retângulo, um círculo, um triângulo... As crianças deverão dar continuidade, sem se preocuparem com as cores.
tamanho: um grande e um pequeno, um grande...
espessura: fino, grosso, fino...
Podemos dar início e deixar as crianças descobrirem a seqüência. Se a maioria não conseguir, aquela que visualizou a seqüência, coloca as cartelas de ordem acima das figuras.

15- Bingo com figuras
material: cartelas
conteúdo: todos os trabalhados com os blocos, discriminação visual
A professora confecciona cartelas com os desenhos de todas as figuras. As peças são colocadas todas dentro de um saco. Uma criança retira uma peça e a descreve: um quadrado, vermelho, grosso, pequeno. A criança que tiver o desenho em sua cartela, tem o direito de colocar um feijão ou uma pedrinha sobre a figura para marcar os lugares. Quem primeiro completar suas cartelas vence o jogo. Eis um exemplo de uma das casas do bingo

16- Jogo da charada
material: cartelas de cores, formas, espessura e tamanho
conteúdo: os trabalhadas com blocos lógicos, desenvolvimento do raciocínio lógico, discriminação visual
Uma equipe escolhe uma peça. Depois disso, vai colocando as cartelas de transformação e no final a peça decorrente. Essa é colocada dentro de um saco. A outra equipe terá que seguir o caminho, tentando descobrir qual a peça está dentro do saco. A equipe que acertar, marcará um ponto. Por exemplo:

da esquerda para a direita (sem contar as flechas) = azul e amarelo
A equipe 1 mostrará o triângulo vermelho grande grosso e a equipe 2 terá que encontrar a peça escondida que é o retângulo, amarelo, pequeno e fino. Podemos desenvolver esse jogo em dois níveis de dificuldade:
Nível 1 - as crianças podem pegar a peça correspondente a cada modificação.
Nível 2 - as crianças terão que fazer as modificações mentalmente, sem manipular as peças.

17- Jogo do detetive
material: blocos lógicos
conteúdo: os trabalhados com os blocos, raciocínio lógico
As crianças podem ser organizadas em duas equipes. Cada equipe dispõe de um jogo de blocos.
Nível 1 - A equipe 1 escolhe uma peça e a coloca atrás de um anteparo. A equipe 2 dispõe os blocos a sua frente, para ajudar a organizar o raciocínio. Esta equipe deve discutir a estratégia de perguntas. Por exemplo: É vermelha? Se equipe 1 responder que não, a equipe 2 poderá retirar as peças vermelhas e perguntar: É amarela? As perguntas continuam até que a equipe 2 possa descobrir qual é a peça que está atrás do anteparo. Então as equipes invertem as posições e a equipe 2 passa a esconder a peça. Uma variante é marcar o número de perguntas que cada equipe faz, ganhando o jogo, quem fizer o menor número de perguntas. Entretanto, se chutar e errar, perde o jogo.
Nível 2 - Quando o jogo, com a manipulação das peças se tornar fácil, podemos sugerir que as crianças apenas olhem para as peças, mas não as toquem.
Nível 3 - Este nível é bem mais difícil, porque exige um raciocínio classificatório interiorizado, vamos sugerir que as crianças descubram a peça sem olhar para outro conjunto de blocos.
Nível 4 - Esconderemos duas ou três peças simultaneamente, que deverão ser descobertas.

18- O tesouro do Pirata
material: 1 caixa de blocos lógicos.
Cada criança pega 1 figura da caixa de blocos lógicos e fica atenta à história. A professora inicia a história: Era uma vez um pirata muito mau. Ele era dono de um navio e vivia de roubar tesouros. Um dia ele roubou um baú cheinho de moedas de ouro e não repartiu com nenhum marujo de seu navio. Naquela noite uma tempestade fez com que o navio batesse nas pedras. Um buraco se abriu no casco do navio que foi ao fundo do mar. Todos os marujos e o prirata nadaram até uma pequena ilha e se salvaram. O pirata estava inconformado e fez com que seus marujos mergulhassem, um a um, até o fundo do mar para ver se recuperavam seu amado baú de moedas de ouro. Mas os marujos voltavam de mãos vazias. O pirata começou a desconfiar que um dos marujos o estava enganando. Então ele começa uma investigação. Nesse momento a professora vai dando as características do ladrão. Por exemplo: o ladrão está com uma peça grande – os que estão com peças pequenas não são os ladrões e devem guarda-las na caixa. Em seguida dó outra característica: O ladrão está com uma peça grande e grossa .... depois grande grossa e vermelha .... grande, grossa, vermelha e de quatro lados, e finalmente dá a ultima característica (escolhe entre quadrado e retângulo). A cada vez que fizer essa brincadeira muda as características.
Variação: a professora entrega uma cartela com os dados da figura para que a criança descubra.

19- Ditado de formas e posições
material: blocos lógicos
conteúdo: noção espacial, lateralidade, raciocínio lógico, linguagem verbal, desenvolvimento de conceitos diversos como: em cima, embaixo, dentro, fora, de um lado, do outro, etc...
Uma dupla de crianças, sentadas uma de costas para a outra tendo uma mesa à sua frente. Cada um recebe blocos idênticos. Um deles deve montar uma cena com suas figuras. Depois disso, ditará ao seu companheiro que tentará montar uma cena idêntica. O que dita deve dar o maior número de informações possível. Por exemplo: Coloque o circulo vermelho no meio da mesa. Coloque o quadrado azul em cima dele. O triângulo azul fica do lado direito do circulo.Obs.: os blocos podem ser trocados por objetos diversos: cola, tesoura, caneca, lápis, etc.

20- Jogo das diferenças
material: blocos lógicos
conteúdo: os trabalhados com os blocos, percepção visual, desenvolvimento do raciocínio lógico.Nesta atividade, as crianças trabalham sobre um quadro contendo três peças. O desafio consiste em escolher a quarta peça observando que, entre ela e sua vizinha, deverá haver o mesmo número de diferenças existente entre as outras duas peças do quadro.
Exemplo:1- triângulo, amarelo, grosso e grande;
2- quadrado, amarelo, grosso e grande;
3- retângulo, amarelo, grosso e grande;
Eles deverão escolher a quarta peça (círculo, amarelo, grosso e grande) observando que, entre ela e sua vizinha, deverá haver o mesmo número de diferenças existente entre as outras duas peças (a diferença na forma).
As peças serão colocadas pela professora de forma que, em primeiro lugar, haja apenas uma diferença. Depois duas, três e, por fim, quatro diferenças entre as peças...

Brincadeiras Infantis nas aulas de matemática

Em matemática, utilizar brincadeiras infantis como atividade freqüente significa abrir um canal para explorar idéias referentes a números de modo bastante diferente do convencional. Enquanto brinca, a criança pode ser incentivada a realizar contagens, comparações de quantidades, identificar algarismos, adicionar pontos que fez durante a brincadeira, perceber intervalos numéricos, isto é, iniciar a aprendizagem de conteúdos relacionados ao desenvolvimento do pensar aritmético. O brincar proporciona oportunidades de perceber distâncias, desenvolver noções de velocidade, duração, tempo, força, altura, além da geometria com suas noções de posição no espaço, de direção e sentido, discriminação visual, memória visual e formas geométricas. É muito importante estimular o registro pictórico depois das brincadeiras.
Eis algumas brincadeiras que poderemos explorar nas aulas de matemática.

1- Amarelinha: um diagrama riscado no chão que deve ser percorrido seguindo-se algumas regras estabelecidas. Desenvolve a noção espacial e auxilia diretamente na organização do esquema corporal das crianças.
 Tradicional
 Caracol ou rocambole
 Orelha
 Inglesa
 Semana

2- Bola de Gude: Desenvolve a estruturação do espaço, a coordenação perceptivo-motora, o raciocínio numérico, a oralidade além de estimular os movimentos, proporcionar momentos de contagem e controle de números de bolinhas, classificações variadas e comparação de tamanho.
 Tradicional: circulo onde são colocadas as bolinhas apostadas. Os alunos, atrás da raia rolam suas bolinhas em direção à ela. Aquele cuja bolinha chegar mais próximo da raia é quem começa o jogo. Este atira a “joga” (bolinha que não entra na aposta), em direção ao gude (circulo) com a finalidade de deslocar para fora, as bolinhas que estão dentro dele. Se a bolinha parar no meio do caminho passa a vez para o próximo colega e continua dali na próxima rodada. Se a bolinha parar no gude, o jogador sairá do jogo. Vence aquele que retirar o maior número de bolinhas do gude.
 Largada: é jogado num quadrado de aproximadamente 1m de lado. Cada jogador tem uma “tecadeira” e deve colocar 5 bolinhas dentro do quadrado. O jogador fica em pé, fora do quadrado e atira sua tecadeira. Se o jogador conseguir tirar uma bola sem que sua tecadeira saia do quadrado, ele ganha a bolinha e continua jogando. Se a tecadeira sair do quadrado ele ganha a bolinha e passa a vez. Se não acertar nada o jogador fica com sua tecadeira
 Box: traçar uma raia no chão e a 3 ou 4 passos dela, cavar 5 buracos em forma de cruz. Inicia o jogo quem, atirando uma bolinha chegar mais perto do buraco do meio. O objetivo do jogo é acertar os cinco buracos. Se conseguir, tem mais uma jogada, se não, passa a vez e recomeça de onde parou. Quando acertar todos os buracos, continua o jogo e tem o direito de tecar as bolinhas dos amigos. A bolinha tecada sai do jogo.
 Estrela: desenha-se um estrela de seis pontas no chão e coloca-se uma bolinha em cada ponta e uma no meio.Desenha-se uma raia de onde os jogadores jogarão sua bolinha. O objetivo é tirar as bolinha da estrela. Cada bolinha quew for retirada é ganha pelo jogador.

3- Bola: auxiliam no desenvolvimento de habilidades como noção de espaço, tempo, direção sentido, identificação e comparação de formas geométricas (bola e circulo), contagem, comparação de quantidades, noção de adição.
 Boliche: direção, impulso, força, coordenação viso-motora, noção de espaço.
 Batata quente: concentração, percepção auditiva, e coordenação dos movimentos no ritmo e tempo em que a professora fala.
 Alerta: o jogador que está com a bola grita um nome e joga a bola para cima. A crianças chamada deve pegar a bola e continuar a brincadeira. (percepção auditiva, agilidade e destreza)
 Bola ao cesto: noção de direção, sentido, localização, contagem, comparação de quantidades.
 Queimada

4- Corda: desenvolvimento do pensamento lógico-matemático atraves das relações espaço-temporais
 Cabo de guerra: Neste jogo as crianças pensam sobre o número de participantes, na igualdade de força, divisão de equipes e noção de limite
 Cobrinha: desenvolve noções de espaço e tempo.
 Aumenta-aumenta: duas crianças seguram as pontas de uma corta e vão aumentando enquanto os colegas pulam. Desenvolve a noção de medida e espaço.
 Chicotinho queimado. As crianças em circulo e uma no meio com uma corda sendo segurada por uma das pontas. Este vai rodar a corda tentando acertar os pés das demais que pulam para não serem atingidas. Saem quem for tocado pela bola.
 Zerinho: desenvolve a coordenação espaço-temporal (distancia velocidade e corrida). A criança deve passar pela corda sem ser tocado por ela.

5- Brincadeiras de perseguição: desenvolve a habilidade para resolver problemas, relações temporais, espaciais e numéricas e a avaliação de distância e velocidade – todas essas noções estão relacionadas a noções de números, medidas e geometria.
 Coelho sai da toca
 Barra manteiga: crianças divididas em dois grandes grupos, ficam frente a frente, sobre duas linhas paralelas, uma criança (o fugitivo) de um grupo vai até a outra equipe e bate na mão dos colegas, e mais fortemente na mão de um (o desafiado). Este corre atrás do fugitivo. O fugitivo estará salvo atrás de sua linha.
 Mãe da rua: a mesma disposição do barra manteiga, só que agora um passa para o campo do outro pulando num pé só. A mãe da rua (a criança que vai pegar), tenta tocar as crianças durante o percurso. O perseguido passa a ser o perseguido.
 Esconde-esconde: contagem, noção de adição e subtração (quantos já peguei? Quantos faltam pegar)

6- Brincadeiras de roda: desenvolve a coordenação sensório-motora, educa o senso rítmico, desenvolve o gosto pela musica e disciplina emoções como timidez, agressividade e prepotência. Desenvolvem também as noções de tempo, de espaço, contagem e noção de par.
 Se eu fosse um peixinho
 Carneirinho carneirão
 A canoa virou
 Galinha do vizinho
 Corre-cutia

7- Outras brincadeiras
 Elefante colorido: desenvolve principalmente a capacidade de observação.
 Eu com as quatro: coordenação viso-motora. Noção de espaço, direção e força.
 Paredão: coordenação motora, noção de direção, impukso, força, equilíbrio. Nessa brincadeira a criança joga a bola na parede pegando-a quando retorna, enquanto fala:Ordem, em seu lugarSem rir, sem falarUm pé (elevar um pé)Com o outro (eleva o outro pé)Uma mão (inutilizar a esquerda)A outra (inutilizar a outra)Bate palmasPiruetasTras e frenteMãos em cruzmeu bom Jesus (mãos em posição de prece)

Bibliografia recomendada:
Coleção “Matemática de 0 a 6” - Kátia S. Smole – Artmed
Brincadeiras Infantis nas aulas de matemática
Resolução de problemas
Figuras e formas

Fonte: A matemática na Educação Infantil – A teoria da Inteligências múltiplas na prática escola- Kátia S. Smole
O ensino da matemática na Educação Infantil – C. Cerquetti
As cem linguagens das crianças – Gandinio e Forman

A EDUCAÇÃO INCLUSIVA E INTELIGENCIAS MÚLTIPLAS



Romeu Kazumi Sassakis

Na medida em que, inspirada no paradigma da inclusão, a escola aceita todas as pessoas, uma dúvida pode ser lançada pelos que são contrários à educação inclusiva: “Uma criança com deficiência intelectual não conseguirá acompanhar os seus colegas. Não vai aprender tanto quanto eles. Ela ficará para trás. Vai ficar marginalizada”.
Este tipo de dúvida se justifica quando é feito por pessoas que ainda acreditam que o ser humano só possui uma inteligência, a inteligência lógica. Daí, a preocupação no sentido de que um aluno com deficiência intelectual não teria capacidade cognitiva para aprender no mesmo ritmo dos seus colegas. Haveria defasagem na aprendizagem entre esse aluno e os demais.
Na escola inclusiva, porém, tal situação não ocorre por uma simples razão: professores e alunos sabem que ali se utiliza a teoria das inteligências múltiplas. Todos os alunos iniciam a escolaridade sabendo quais das oito inteligências são as mais desenvolvidas em cada um. Todos os alunos estudam fazendo uso de suas melhores inteligências tanto na sala de aula como fora dela.
Segundo Howard Gardner, todos os seres humanos possuem muitas inteligências. Hoje, pais e educadores tendem a não mais perguntar: “Quão inteligente é cada filho ou aluno?”. Ou seja, é cada vez mais irrelevante querer saber quem é mais inteligente ou quem é menos inteligente ou nada inteligente. Em vez disso, já que toda pessoa é inteligente, devemos perguntar: “De que maneira cada filha ou aluno é inteligente?”.


As inteligências múltiplas e sua fundamentação

No início da década de 80, a teoria da inteligência única começou a ser cientificamente questionada. Em seu lugar surgiu a teoria das inteligências múltiplas, tendo sido identificadas sete nas primeiras pesquisas, incluindo aquela que corresponde à antiga inteligência única, ou seja, a inteligência lógico-matemática, também conhecida como inteligência racional. Mais recentemente, a esse total de sete inteligências, foi acrescentada a inteligência naturalista.
Em conseqüência dessa constatação, os tradicionais testes de inteligência deixam de ter utilidade. Os testes de QI (quociente de inteligência) sempre foram considerados falhos porque limitavam-se a medir um único aspecto da multiplicidade de habilidades do ser humano (Gardner, 1983; Veja, 1983; Folha de S. Paulo, 1984; McKean, 1985; Góes & Barreira, 1986; Globo Ciência, 1995)
Assim, não mais classificamos as pessoas como tendo “inteligência acima da média”, “inteligência média”, “inteligência abaixo da média” e “inteligência zero”, referindo-nos a um arbitrário valor quantitativo da suposta inteligência única do ser humano.
Quando professores, pais ou terapeutas tentam colocar na cabeça de um aluno, filho ou cliente um conhecimento por eles escolhido, eles estão desconsiderando o potencial existente no conjunto de caracteres exclusivos daquela pessoa. Mas quando eles abrem espaço para que a própria pessoa use sua identidade na construção desse conhecimento, eles estão ajudando a desenvolver o potencial de aprendizagem dela.
O psicólogo americano Howard Gardner, da Universidade Harvard, foi um dos primeiros cientistas a fazer pesquisas “com crianças talentosas no Projeto Zero, um grupo de trabalho inovador que tratava de compreender a criatividade artística, e também com pacientes com lesões cerebrais na Universidade de Boston e num hospital dessa cidade. Esse duplo comprometimento com crianças talentosas e com adultos gravemente enfermos contribuiu para que Gardner moldasse sua visão eclética da mente. Ele e o psicólogo David Feldman, da Universidade Tufts, impressionaram-se com a tenra idade na qual certas crianças manifestavam habilidades especiais. No hospital, Gardner também ficou surpreso com a seletividade cruel e estranha que uma doença e uma lesão acarretam à mente. Pacientes com lesão no hemisfério esquerdo perdiam a faculdade de falar, mas ainda eram capazes de cantar a letra de canções, porque o hemisfério musical da direita estava ileso. Por outro lado, pacientes do hemisfério direito podiam ler impecavelmente mas eram incapazes de interpretar o que liam. Tais experiências convenceram Gardner de que a inteligência, longe de ser uma força unitária da mente, consiste de uma série de faculdades mentais que não só se manifestam independentemente como saltam talvez de diferentes áreas do cérebro.” (McKean, p. 66)
Assim, buscar o potencial nas identidades individuais significa descobrir talentos em todas as pessoas individualmente, partindo-se do pressuposto de que ninguém é tão severamente prejudicado que não possua uma habilidade. Se a mais prejudicada das pessoas possui uma habilidade, então todas as pessoas podem aprender, mas cada uma de uma maneira diferente das outras. As pessoas não possuem uma mesma e única habilidade como geralmente parecem supor os professores, pais e terapeutas que insistem em classificar seus alunos, filhos e clientes comparando-os uns com os outros nas produções que estes apresentam.
As categorias de inteligências múltiplas incluem, segundo Howard Gardner (1995):
LÓGICO-MATEMÁTICA: habilidade de usar números efetivamente.
VERBAL-LINGÜÍSTICA: habilidade no uso da palavra oral e escrita.
CORPORAL-CINESTÉSICA: habilidade no uso do corpo todo para expressar idéias e sentimentos.
MUSICAL: habilidade para ritmo, melodia ou tom da música.
INTERPESSOAL: habilidade de perceber e compreender o interior das outras pessoas.
INTRAPESSOAL: habilidade de perceber e compreender o interior de si mesmo.
VISUOESPACIAL: habilidade para perceber e usar o mundo visual e espacialmente.
NATURALISTA: habilidade de reconhecer e usar produtivamente a fauna e a flora.

No lugar dos tradicionais testes de QI, foi desenvolvido um conjunto de instrumentais de avaliação (Ver ANEXO I, em separado), que pode ser aplicado facilmente por professores em seus alunos e por pais em seus filhos.
Os educadores devem aplicar este instrumental em si mesmos antes de aplicá-los em seus alunos Há uma versão que pode ser aplicada por qualquer pessoa em si mesma (Ver ANEXO II, em separado). Isto faz sentido, pois os próprios educadores necessitam ter um entendimento experiencial da nova teoria da inteligência a fim de poderem utilizar corretamente as inteligências múltiplas de seus alunos. Uma outra razão importante é que os educadores precisam saber como os diferentes níveis de desenvolvimento em cada uma de suas oito inteligência afetam a maneira como eles atuam na escola.
Assim fazendo, o professor poderá ter uma noção de como ele utiliza as oito inteligências em sua vida pessoal e profissional. Isto o levará a refletir sobre a maneira como ele direciona suas preferências no trato com os seus alunos e as pessoas em geral. Ele poderá planejar atividades que o ajudarão a melhor desenvolver determinadas inteligências.

Inteligências múltiplas, estilos de aprendizagem e educação de qualidade
Pelo paradigma da inclusão, oferecemos uma educação de qualidade sem excluir nenhum aluno, atendemos a diversidade humana presente no mesmo espaço escolar e, para isso, respondemos ao estilo de aprendizagem e às múltiplas inteligências de cada aluno.
É, portanto, imprescindível valorizarmos a nossa crença de que “Todos poderão aprender se acolhermos os diferentes estilos de aprendizagem e as inteligências múltiplas de cada aluno”. Os estilos de aprendizagem são o modo como cada um de nós aprende melhor e as inteligências múltiplas constituem as habilidades que podemos utilizar para aprender qualquer coisa e realizar nossos objetivos. Há uma estreita relação entre estilos de aprendizagem e inteligências múltiplas.
Segundo Gardner (1994), “a teoria das inteligências múltiplas sugere abordagens de ensino que se adaptam às ‘potencialidades’ individuais de cada aluno, assim como à modalidade pela qual cada um pode aprender melhor (citado por Schaffner & Buswell in Stainback & Stainback, 1999, p. 81)
As modalidades pelas quais as pessoas aprendem melhor constituem os estilos de aprendizagem, que são os seguintes:

PELO ESTILO
A PESSOA APRENDE
Visual
1. vendo, olhando, observando
Auditivo
2. ouvindo
Cinestésico
3. com estímulos táteis, movimentos corporais
Artístico
4. desenhando, pintando, cantando, dramatizando
Visual-auditivo
1 + 2
Visual-cinestésico
1 + 3
Visual-artístico
1 + 4
Auditivo-cinestésico
2 + 3
Auditivo-artístico
2 + 4
cinestésico-artístico
3 + 4
Visual-auditivo-cinestésico
1 + 2 + 3
Visual-auditivo-artístico
1 + 2 + 4
Visual-cinestésico-artístico
1 + 3 + 4
Visual-auditivo-cinestésico-artístico
1 + 2 + 3 + 4

Na postura tradicional, diagnóstica, em que se busca saber quais são as dificuldades dos alunos, o professor fica na maioria das vezes sem saber quais estratégias de ensino utilizar diante de tantas limitações. Já com a postura inclusiva, procurando saber quais são as habilidades e identificando o estilo de aprendizagem e as inteligências múltiplas de cada aluno, o professor encontra bastante espaço para garantir o sucesso dos alunos nas atividades escolares.

Como oferecer uma educação de qualidade?
Sabe-se que uma educação de qualidade é aquela que atende às necessidades de cada aluno, respeita o estilo de aprendizagem de cada aluno, propicia condições para o atingimento de objetivos individuais e utiliza as oito inteligências de cada aluno. Como desenvolver e oferecer uma educação? Devemos conhecer e promover os recursos pessoais do nosso aluno. Como?
Antes de tudo, devemos abandonar certas posturas tradicionais, baseadas em valores, crenças e teorias que não mais correspondem às necessidades das pessoas que atendemos.
Significativas mudanças estão ocorrendo no mundo nos últimos 10 anos. No campo da atenção às pessoas com deficiência, essas mudanças estão desafiando dirigentes e profissionais de entidades, bem como pessoas deficientes e suas famílias a reexaminarem seus valores éticos, suas crenças e seus referenciais teóricos a fim de que a vida de todas as pessoas envolvidas possa ser de melhor qualidade.
Três tendências se evidenciam atualmente afetando a vida das pessoas em geral.

· A sociedade está se tornando cada vez mais inclusiva, adaptando-se às necessidades especiais de seus cidadãos e descartando as atitudes discriminatórias frente às diferenças individuais (INCLUSÃO).
· As pessoas estão ficando mais empoderadas em todos os setores de atividade, não aceitando imposições da parte de outras pessoas (EMPODERAMENTO).
· Os governos, as empresas e as entidades estão procurando trabalhar em parceria (cooperação, alianças estratégicas) para solucionarem os problemas da escassez ou falta de recursos nas áreas de saúde, reabilitação biopsicossocial e/ou profissional, educação escolar, educação profissional, colocação em empregos competitivos, geração de empregos e trabalhos, geração de renda etc. (PARCERIAS e INTERFACES).

Todos os alunos são inteligentes e todos aprendem:
as diferenças individuais na diversidade humana
A diversidade humana é um fato numa sociedade plural. Compõem essa diversidade todos os segmentos populacionais representados por etnias, raças, nacionalidades, naturalidades, regiões sócio-econômicas, culturas, deficiências físicas, deficiências sensoriais, deficiências mentais, deficiências múltiplas, deficiências psiquiátricas, distúrbios orgânicos, histórico penitenciário etc.
No livro Programas de Promoção da Igualdade: Guia de Elaboração (Brasília: MTE/Assessoria Internacional, 2000, p. 11), encontramos que devemos “levar em conta a diferença e a variedade de pessoas e opiniões (...), assumindo que as pessoas são diferentes e a sociedade é formada pelo conjunto destas pessoas. Essas diferenças garantem a sua individualidade e todos os envolvidos devem ser levados em conta, estabelecendo tratamento sem distinção de qualquer natureza (etnia, ideologia, religião, raça/cor, sexo/gênero, origem social, deficiência, posição econômica, condição de saúde, idade, nacionalidade, naturalidade etc.”.
As diferenças individuais decorrem de idade, combinação única de inteligências múltiplas com estilos aprendizagem, temperamento, aptidões e habilidades, interesses, compleição física, aspirações e sonhos, experiência de vida etc.
O professor inclusivo prepara suas aulas e desenvolve suas atividades em sala de aula respeitando a diversidade humana e as diferenças individuais de seus alunos. Acrescentando a isto o cuidado de propiciar condições para o atingimento dos objetivos individuais, o professor leva em consideração também a participação ativa dos alunos em todos os aspectos da vida escolar.

Aplicação das inteligências múltiplas em todas as disciplinas
Qualquer disciplina pode e deve ser desenvolvida utilizando todas as inteligências. O princípio dessa utilização é o mesmo: devemos envolver a pessoa toda de cada aluno.
Sabemos de professores que sempre entenderam que a função deles é a de ensinar falando o tempo todo para os alunos, escrevendo na lousa para os alunos copiarem e dando aos alunos tarefas escritas para provar que entenderam a matéria dada. Trata-se de uma abordagem muito limitada da aprendizagem, cujos resultados práticos são desastrosos: alunos desinteressados na aula, alunos desmotivados para executar tarefas, alunos que acabam não aprendendo nada de relevante para sua vida etc.
Por outro lado, quando o professor utiliza todas as inteligências de cada aluno, ele está ampliando ao mesmo tempo o seu repertório de estratégias de ensino e a gama de participação positiva do aluno no processo de aprendizagem. De certa forma, o princípio de envolver o todo do aluno já era preconizado há muito tempo. Por exemplo, Platão escreveu: “Não usemos a coação, deixemos que a educação inicial seja uma espécie de divertimento; desta forma, será mais fácil descobrir a inclinação natural de cada um” (Diálogos de Platão, citado por Armstrong, p. 59). Jean Jacques Rousseau, no século 17, declarou que “a criança precisa aprender não por meio das palavras, mas por meio da experiência; não por meio de livros, mas por meio do ‘livro da vida’” (Emile, citado por Armstrong, p. 60). Johann Heinrique Pestalozzi “enfatizou um currículo integrado que considerasse o treinamento físico, moral e intelectual baseado solidamente em experiências concretas” (in Armstrong, p. 60). Friedrich Froebel “desenvolveu um currículo consistindo em experiências práticas com manipulativos (‘prendas’), jogos, músicas, jardinagem e cuidado de animais” (idem, p. 60). Maria Montessori e John Dewey, no século 20, “desenvolveram sistemas de instrução baseados em técnicas semelhantes às das inteligências múltiplas: as letras táteis e outros materiais para trabalhar em ritmo individual, de Montessori, e a visão de Dewey da sala de aula como um microcosmo da sociedade” (idem, p. 60).
Enfim, a idéia central da aplicação das inteligências múltiplas no desenvolvimento de qualquer disciplina é a de “incluir uma variedade mais ampla de métodos, materiais e técnicas e atingir uma gama cada vez maior e mais diversa de aprendizes”. (Armstrong, p. 60).
Apresentamos, a seguir, três exemplos de aulas que utilizam as inteligências múltiplas, adaptados de três fontes (Armstrong, p. 176-178; Campbell e outros, p. 231-232 e 235; Ferretti e outros, p. 83 e 157):

Primeiro Exemplo
Nível: 2ª Série
Disciplina: Matemática
Objetivo dos alunos: Dominar o processo de multiplicação por 7; reforçar também o conceito do que significa “multiplicar”. A turma fará uma destas atividades diariamente na aula de matemática:
Procedimentos de avaliação:
· Contar até 70, ficando em pé e batendo palmas sempre no sétimo número. [Corporal-Cinestésica]
· Cantar os números de 1 a 70, colocando ênfase especial sempre no sétimo número. [Musical]
· Relacionar a multiplicação com a soma (7 x 2 = 14; 7 + 7 = 14), utilizando pedrinhas, peças de jogos, tampinhas etc. [Espacial, Corporal-Cinestésica, Interpessoal]
· Criar combinações e possibilidades em tabelas de dupla entrada: quantas combinações são possíveis realizar com 3 calças (verde, lilás e branca) e 4 camisas (preta, vermelha, azul e amarela), utilizando papéis coloridos na quantidade necessária. [Espacial, Interpessoal, Corporal-Cinestésica]
· Criar materialmente as noções de dobro, triplo e metade, utilizando elementos reais ou imitações da natureza. [Naturalista, Espacial, Corporal-Cinestésica]
· Formar círculos de 10 alunos, cada aluno usando um número de 0 a 9. Começando com 0, os participantes contam conforme caminham em torno do círculo (da segunda vez em volta do círculo, o 0 se torna um 10, o 1 um 11, e assim por diante; da terceira vez, o 0 se torna um 20, o 1 um 21, e assim por diante). Conforme contam, os participantes passam um novelo de lã em torno do círculo, desenrolando-o na medida em que fazem isso. A primeira pessoa agarra a extremidade do fio, e a sétima pessoa depois dessa também agarra um pedaço antes de passar adiante o novelo. Ao chegar a 70, os alunos verão que o fio criou um desenho geométrico. [Espacial, Corporal-Cinestésica, Interpessoal]
· Criar seus desenhos geométricos para os 7s em um tabuleiro ou desenho, usando a estratégia descrita anteriormente (por exemplo, usar um círculo numerado de 0 a 9 e depois conectar com um cordão sempre no sétimo número até 70. [Espacial]
· Encontrar formas naturais que vêm em sete (por exemplo, flores) e explorar a matemática usando os múltiplos da natureza (por exemplo, quantas pétalas têm seis flores de sete pétalas?). Faça isso com formas vivas num ambiente natural (não destrua flores trazendo-as para serem “dissecadas”). [Naturalista]

Segundo Exemplo
Nível: 3ª Série
Disciplina: Ciências
Objetivo dos alunos: Aprender o processo da fotossíntese através de oito inteligências.
Material disponível: cartazes ou gráficos do processo da fotossíntese, várias fitas de áudio (ou CDs) musicais, aparelho de som, aquarelas, livros de ciências e mudas de plantas.
Procedimentos de avaliação: 1. Dar nota às oito atividades propostas. 2. Pedir aos alunos para avaliarem as representações e/ou canções uns dos outros.

· Ler o texto do livro que descreve a fotossíntese e aprender oi vocabulário adequado. [Lingüística]
· Pintar o processo da fotossíntese, utilizando aquarelas. [Espacial-Visual,]
· Criar uma colagem musical com diferentes peças musicais que representem a seqüência dos passos envolvidos na fotossíntese. [Musical]
· Escrever um tópico de diário que reflita uma experiência pessoalmente transformadora e compará-la à fotossíntese. [Intrapessoal]
· Criar uma linha de tempo das etapas da fotossíntese. [Lógico-Matemática]
· Representar, teatralmente, os “personagens” envolvidos no processo da fotossíntese. [Corporal-Cinestésica]
· Discutir, em pequenos grupos, o papel transformativo dos cloroplastos na fotossíntese e traçar paralelos com a vida dos alunos. [Interpessoal]
· Comparar mudas que crescem com luz suficiente com outras que crescem sem luz adequada. [Naturalista]


Terceiro Exemplo (Menus de Instrução)
Nível: Qualquer Série
Disciplina: Qualquer disciplina
Objetivo dos alunos: Aprender com sucesso os conteúdos do currículo escolar.
Procedimentos de avaliação: Há uma variedade muito grande de procedimentos de avaliação que podem ser encontradas em livros de Armstrong e Campbell, entre outros (ver Bibliografia). O importante é nunca perder de vista a finalidade das avaliações: permitir aos alunos demonstrarem sua aprendizagem utilizando suas diversas habilidades, através de medidas autênticas (ipsativas e contextualidas).

MENU LINGÜÍSTICO
· Use histórias para demonstrar...
· Realize um debate sobre...
· Escreva um poema, um mito, uma lenda, uma peça curta ou um artigo de jornal sobre...
· Faça uma apresentação sobre...
· Narre um conto ou um romance para...
· Faça uma apresentação sobre...
· Conduza uma discussão em sala de aula sobre...
· Crie um programa de entrevistas de rádio sobre...
· Escreva uma comunicação, um folheto ou um dicionário sobre...
· Invente slogans para...
· Faça uma gravação em áudio de...
· Conduza uma entrevista de... sobre...
· Escreva uma carta para... sobre...
· Use a tecnologia para escrever...

MENU LÓGICO-MATEMÁTICO
· Crie problemas narrados para...
· Traduza... em uma fórmula matemática...
· Crie uma linha de tempo do...
· Planeje e conduza uma experiência sobre...
· Faça um jogo estratégico que...
· Crie silogismos para demonstrar...
· Crie analogias para explicar...
· Use... habilidades de pensamento para...
· Crie um código para...
· Categorize fatos sobre...
· Descreva padrões ou simetria em...
· Selecione e use tecnologia para...

MENU CINESTÉSICO
· Represente ou simule...
· Crie um movimento ou uma seqüência de movimentos para explicar...
· Coreografe uma dança de...
· Invente um jogo de tabuleiro ou de chão de...
· Faca cartões de tarefa ou de quebra-cabeça para...
· Crie ou construa um...
· Planeje e faça uma pesquisa de campo que...
· Use as qualidades de uma pessoa fisicamente treinada para demonstrar...
· Crie uma "caça ao tesouro" para...
· Faça um modelo de...
· Use materiais práticos para...
· Reúna e apresente canções sobre...
· Escreva um novo final para uma canção ou composição musical para que ela explique...
· Crie uma colagem musical para descrever...
· Use a tecnologia musical para...

MENU INTERPESSOAL
· Conduza uma reunião para tratar...
· Com um parceiro, use "a resolução de problemas em voz alta" para...
· Represente as perspectivas múltiplas sobre...
· Organize ou participe de um grupo para...
· Use intencionalmente as habilidades sociais para aprender sobre...
· Participe de um projeto de serviço para...
· Ensine a alguém mais sobre...
· Com um pequeno grupo, planeje cooperativamente regras ou procedimentos para realizar...
· Ajude a resolver um problema local ou global...
· Pratique dar e receber ajuda sobre...
· Usando uma de suas capacidades, assuma um papel em um grupo para realizar...

MENU VISUAL-ESPACIAL
· Faça uma tabela, um mapa, agrupamento ou um gráfico para...
· Crie uma apresentação de slides, videoteipe ou álbum de fotos de...
· Projete um cartaz, quadro de avisos ou mural de...
· Use um sistema de memória para aprender...
· Crie trabalhos artísticos que...
· Desenvolva desenhos arquitetônicos que...
· Faça anúncios para...
· Varie o tamanho e a forma de...
· Use código de cores para...
· Invente um jogo de tabuleiro ou de cartas para demonstrar...
· Ilustre, desenhe, pinte, esboce, esculpa ou construa...
· Use o projetor para ensinar...
· Use tecnologia para...

MENU MUSICAL
· Faça uma apresentação com acompanhamento musical adequado sobre...
· Escreva letra de música para...
· Cante um rap ou canção que explique...
· Indique os padrões rítmicos em...
· Explique como a letra de uma canção se relaciona com...
· Explique como a música de uma canção e semelhante a...
· Apresente uma aula musical curta sobre...
· Faça um instrumento e use-o para demonstrar...
· Use a música para melhorar a aprendizagem de...

MENU INTRAPESSOAL
· Descreva qualidades que você possui que irão ajudá-lo a realizar com sucesso...
· Crie uma analogia pessoal para...
· Estabeleça e persiga um objetivo para...
· Descreva como se sente sobre...
· Explique sua filosofia pessoal sobre...
· Descreva um de seus valores pessoais sobre...
· Use a aprendizagem autodirigida para...
· Escreva um tópico de diário sobre...
· Explique o propósito que você persegue em estudar...
· Conduza um projeto de sua escolha sobre...
· Receba ajuda de outra pessoa em seus esforços para...
· Avalie seu trabalho em...
· Use a tecnologia para...

MENU NATURALISTA
· Colete e categorize dados...
· Mantenha um registro de observações sobre...
· Compare fenômenos climáticos com ...
· Invente categorias para...
· Explique como uma espécie de planta ou animal se assemelha a...
· Faça uma taxonomia de...
· Use binóculos, microscópios, lentes, telescópios para...
· Identifique os relacionamentos entre...
· Cuide de plantas e animais para aprender sobre...
· Descreva os ciclos ou padrões de...
· Especifique as características de...
· Participe de um passeio ao ar livre no(a)...
· Use tecnologia para explorar...

As inteligências múltiplas na avaliação da aprendizagem,
nas adaptações curriculares e nas atividades discentes
Pela perspectiva da teoria das inteligências múltiplas, muda consideravelmente o conceito e a prática da avaliação da aprendizagem. Não mais aceitamos a idéia de submeter os alunos a testes, provas ou trabalhos no final de um período de aulas a fim de que eles provem por escrito o que aprenderam. Tal tipo de avaliação partia do pressuposto de que todos os alunos têm um único estilo de aprendizagem e de que devem provar de uma única maneira que aprenderam a lição dada.
Como diz Armstrong, as medidas padronizadas “quase sempre avaliam os alunos em ambientes artificiais, distantes do mundo real”, ao passo que “as medidas autênticas permitem aos alunos mostrar aquilo que aprenderam em um contexto ¾ em outras palavras, em um ambiente muito parecido com o ambiente no qual se espera que mostrem essa aprendizagem na vida real” (Armstrong, p. 119).
Assim, ao aplicarmos a teoria das inteligências múltiplas, abrimos uma ampla gama de situações relevantes e significativas para a vida do aluno, das quais extraímos os dados de avaliação da aprendizagem. Como princípio, nunca comparamos os alunos entre si, sempre os comparamos com os respectivos desempenhos anteriores de cada um.
Dentre as experiências que servem para a avaliação, a mais importante é a observação e em seguida a documentação dos produtos dos alunos. Afirma Armstrong que “observar os alunos resolvendo problemas ou criando produtos em contextos naturalistas fornece o melhor quadro de suas competências na variedade de assuntos ensinados na escola” (p. 121).

Como se vê, há uma variedade enorme de meios interessantes para o aluno envolver-se nas atividades discentes e mostrar o que aprenderam.
A avaliação da aprendizagem deve servir menos para mostrar as falhas do aluno e mais para mostrar onde o ensino precisa melhorar, onde o professor pode mudar suas abordagens educativas, onde a escola deve reestruturar-se melhor.

Professores, alunos, familiares, técnicos e outros componentes da comunidade escolar diante da teoria das inteligências múltiplas
Todos os integrantes da comunidade escolar devem ser informados e capacitados a respeito da teoria das inteligências múltiplas a fim de que a aplicação desta teoria se torne uma prática comum em toda a escola.
Professores e alunos têm no uso das inteligências múltiplas o fator sine qua non do sucesso da aprendizagem. Em todas as aulas e nas atividades extraclasse, os alunos estarão valendo-se da combinação única de suas oito inteligências para aprender, realizar trabalhos, interagir socialmente etc.
Os técnicos, em especial os psicólogos, também devem trabalhar com as inteligências múltiplas para si mesmos e para os alunos e familiares.
Os funcionários da escola se beneficiarão muito com o conhecimento da teoria das inteligências múltiplas e passarão a melhor compreender os comportamentos dos alunos, resultando em um melhor relacionamento interpessoal com os mesmos.
Os familiares terão uma participação importante ao ajudar os professores e técnicos a identificarem os níveis de desenvolvimento das inteligências de seus filhos. Em seguida, os familiares serão elementos-chave no desenvolvimento das inteligências de seus filhos, designando tarefas que solicitem o uso das melhores inteligências, entendendo melhor o comportamento dos filhos e interagindo mais adequadamente com eles.

Conclusão
A busca do potencial nas identidades individuais precisa percorrer um novo caminho, o paradigma da inclusão. Nós ¾ professores, pais, terapeutas e familiares, mas também todas as demais pessoas da sociedade ¾ precisamos adotar os princípios do empoderamento, da autodeterminação e autodefesa, da vida independente, da autonomia, do modelo social da deficiência, da equiparação de oportunidades, da rejeição zero, da cooperação e colaboração, da diversidade humana e das diferenças individuais.
Em muitas das nossas instituições e em muitos lares, existem jovens e adultos com deficiências mais comprometidas que vêm permanecendo por muitos anos na condição de incapazes de aprender e produzir. No passado, isto foi aceitável diante dos diagnósticos e prognósticos que nossos instrumentais avaliativos e nossos referenciais teóricos mais avançados nos indicavam.
Mas hoje, conhecendo as descobertas propiciadas pelo paradigma da inclusão e tendo em mãos a teoria das inteligências múltiplas, não temos mais o consentimento das próprias pessoas com deficiência e de outras pessoas socialmente excluídas para continuarmos adotando os critérios de avaliação, as metodologias didáticas e demais recursos educacionais que não mais atendem aos interesses, às aspirações e às necessidades e, acima de tudo, ao potencial até então ignorado de tantas e tantas identidades individuais.
Como afirma Parish (1989, Inclusion News), “Não há dúvida: as escolas precisam adaptar-se aos alunos e não o inverso”. Nossas crianças, adolescentes e também os adultos não podem mais continuar sendo sacrificados e levando uma vida de baixa qualidade por causa da nossa incapacidade de responder aos estilos de aprendizagem e às múltiplas inteligências de cada um deles.
O potencial existe em cada pessoa, não importa o grau de severidade da sua condição. Helen Keller, cuja produção foi imensa e muito contribuiu para melhorar a vida das pessoas, escreveu a seguinte frase: “Eu sou apenas uma. Não posso fazer tudo mas posso fazer algo. Eu não me recusarei a fazer o algo que posso fazer.“ (In Inclusion News)
Temos de efetuar mudanças radicais nos nossos sistemas de educação, saúde, desenvolvimento social etc. As mudanças não são impossíveis embora muitos aleguem isso. Como afirmou Wayne Sailor (1991, in Inclusion News), “A questão fundamental é a atitude. Se é algo que você deseja fazer, você começa a procurar meios de consegui-lo. Se é algo que você não deseja fazer, você começa a procurar desculpas para não fazê-lo.”
Na verdade, nós não temos muita opção. Ou mudamos ou morremos. Então, vamos mudar! De nada adianta termos atingido uma nova visão de pessoa, de potencial humano, de sociedade, se não a utilizarmos para efetuar mudanças.

Uma visão sem ação é apenas uma alucinação. ¾ Beth Jones, 7ª série, 1994.

Bibliografia referenciada
ARMSTRONG, Thomas. Inteligências múltiplas na sala de aula. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2001, 192 p.
CAMPBELL, Linda, CAMPBELL, Bruce, DICKINSON, Dee. Ensino e aprendizagem por meio das inteligências múltiplas. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2000, 308 p.
FERRETTI, Jane Shirley Escodro e outros (orgs). Plano de ensino: rede municipal de ensino de Indaiatuba, Departamento de Ensino Fundamental. Indaiatuba: Secretaria Municipal de Indaiatuba, 2005. 191 p.
GARDNER, Howard. Inteligências múltiplas: A teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995, 257 p.
—. Estruturas da mente: A teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 1994, 340 p.
MCKEAN, Kevin. Teorias da inteligência. Diálogo, v. 20, n. 1, p. 65-70, 1987.
SOB novas luzes: Um psicólogo revê a noção de inteligência. Veja, São Paulo, 23 nov. 1983, p. 94.
“SUPERDOTADOS: Como tratar estas crianças tão especiais”. Globo Ciência, v. 5, n. 53, p. 28-34, dez. 1995.
STAINBACK, Susan, STAINBACK, William. Inclusão: Um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999, 451 p.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A INSERÇÃO DA CRIANÇA SURDA EM CLASSE DE CRIANÇAS OUVINTES:


Cristina Broglia Feito sa de Lacerda
Curso de Fonoaudiologia
Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP

SURDEZ, LÍNGUA DE SINAIS E INCLUSÃO

Desde cedo a criança ouvinte tem a oportunidade de conviver com a língua utilizada por sua família. O interlocutor adulto colabora para que a linguagem da criança flua, oportunizando atitudes discursivas que favoreçam a aprendizagem e a identificação de aspectos importantes da língua na qual ela está sendo imersa, e que irá se apropriar ao longo de seu desenvolvimento. As crianças surdas, em geral, não têm a possibilidade desse aprendizado/apropriação, já que na maioria das vezes não têm acesso a língua utilizada por seus pais (ouvintes). Tais crianças permanecem no ambiente familiar apreendendo coisas do mundo e da linguagem de forma fragmentada e incompleta justamente por sua dificuldade de acesso à língua a qual esta sendo exposta.
Atenta à questão fundamental da necessidade de um desenvolvimento satisfatório de linguagem para a constituição dos sujeitos é que surge a proposta da abordagem bilíngüe para a pessoa surda, que enfatiza a necessidade de que o surdo adquira o mais precocemente possível uma língua de forma plena, que é a Língua de Sinais, considerada a língua natural dos surdos, e, como segunda língua, aquela utilizada por seus pais. A Língua de Sinais por suas características viso-gestuais é passível de ser adquirida pela pessoa surda sem dificuldades adicionais, sem que sejam necessários programas de treinamento, já que os surdos em contato com outros surdos usuários de Língua de Sinais procedem uma aquisição ampla e eficaz.
Nessa mesma perspectiva está baseada a proposta de educação bilíngüe, que busca contemplar o direito lingüístico da pessoa surda de ter acesso aos conhecimentos sociais e culturais em uma língua na qual tenha domínio. Além disso, aspectos culturais, sociais, metodológicos e curriculares inerentes à condição de surdez precisam ser considerados em uma proposta séria de ensino à comunidade surda (Skliar, 1997).
Tal projeto de escolarização pressupõe que os educadores envolvidos tenham domínio das línguas envolvidas, a Língua de Sinais e a língua usada pelos ouvintes (no caso o Português), e do modo peculiar de funcionamento de cada uma delas em suas diferentes modalidades. Tal domínio é fundamental para possibilitar que o sujeito surdo tenha acesso aos conhecimentos de mundo e que possa trabalhá-los tanto na Língua de Sinais como em Português, especialmente em sua modalidade escrita, modalidade dominante no meio acadêmico, a qual permite e favorece o acesso a uma quantidade ilimitada de conhecimentos.
Todavia, a efetivação de propostas educacionais bilíngües ocorrem isoladamente, muitas vezes de forma experimental, sem que se possa desfrutar dessa alternativa de ensino de maneira mais abrangente. A falta de surdos adultos usuários de Língua de Sinais e habilitados como professores, o preconceito social frente à Língua de Sinais, a dificuldade de muitos em aceitar a comunidade surda como uma comunidade lingüística especial, faz com que a proposta de educação bilíngüe avance lentamente, enfrentando grandes obstáculos e problemas. Países que optaram por essa abordagem oficialmente, mostram resultados muito satisfatórios no que diz respeito ao desenvolvimento e aprendizagem das pessoas surdas (Lewis, at al, 1995) Entretanto, a maior parte dos surdos atendidos no Brasil não têm podido ter acesso a uma escolarização que atente para suas necessidades lingüísticas, metodológicas, curriculares, sociais e culturais. Os surdos encontram-se em classes/escolas especiais que atuam em uma perspectiva oralista, as quais pretendem em última análise que o aluno surdo comporte-se como um ouvinte, lendo nos lábios aquilo que não pode escutar, falando, lendo e escrevendo a Língua Portuguesa. Ou em escolas regulares, inseridos em classes de ouvintes nas quais, novamente, espera-se que ele se comporte como um ouvinte acompanhando os conteúdos preparados/pensados para as crianças ouvintes, sem que qualquer condição especial seja propiciada para que tal aprendizagem aconteça.
Muitos estudos indicam que pessoas surdas, nessas condições de escolarização, mesmo após vários anos, apresentam dificuldades em relação à aquisição de conhecimentos de maneira geral, e no uso da linguagem escrita, especialmente; em geral, porque as práticas educacionais não contemplam as reais necessidades dos surdos, fazendo com que eles apresentem conhecimentos muito aquém daqueles desejados para seu grau/anos de escolaridade (Lacerda, 1996; Góes, 1996; Souza, 1996).
De acordo com Góes (1996), essa condição não é exclusiva das experiências escolares de surdos, nem inerente à condição de surdez. Um dos grandes problemas está no ensino e nas relações sociais de aprendizagem, mais especificamente, na prática pedagógica, que falha também na alfabetização de ouvintes. Todavia, cabe ao aluno surdo, nesse contexto, enfrentar complexas demandas adicionais por apresentar uso restrito da língua utilizada nas atividades de sala de aula.
A inserção do aluno surdo no ensino regular é uma das diretrizes fundamentais da política de inclusão/integração. Integração é entendida nesse contexto como um processo dinâmico de participação das pessoas, legitimando sua interação nos grupos sociais, implicando em reciprocidade. Nesse sentido, a Integração Escolar é vista como um processo gradual e dinâmico que pode tomar formas distintas de acordo com as necessidades dos alunos. Acredita-se que essa integração possibilite a construção de processos lingüísticos adequados, de aprendizado dos conteúdos acadêmicos e uso social da leitura e da escrita. Nessa proposta o professor media e incentiva a construção do conhecimento através da interação com ele e com os colegas. O fato do surdo, em geral, não ter uma língua compartilhada com seus colegas e professores, e de estar em desigualdade lingüística em sala de aula não é contemplado (Botelho, 1999; Lacerda, 1999).
Além disso, encorajar a integração apenas não é suficiente, é preciso prever antecipadamente acomodações, equipamentos, materiais e recursos necessários através dos quais, a condição básica para a efetivação dessa integração será dada, incluindo-se também a colaboração dos professores e a programação das atividades escolares e extra-escolares.
Nesse sentido, é importante a participação da comunidade local, a criação de salas de recursos com professor especializado para propiciar apoio e atendimento ao aluno e demais membros da comunidade escolar, e a estruturação de uma rede de profissionais à serviço desse atendimento. Mais do que isso, é necessário um projeto de educação concreto na instituição ou centro de educação que leve em consideração a presença das necessidades especiais de alunos surdos (Moro,1997).
Discutindo a questão da integração, vários autores (Machesi, 1995; Góes, 1996) apontam para argumentos favoráveis e contrários à integração no atendimento ao surdo no ensino regular. De um lado, a defesa se baseia no favorecimento da comunicação oral e da adaptação da pessoa surda ao entorno social; tal iniciativa resultaria em maior compromisso do sistema educacional oficial, que tende a omitir-se frente a educandos que requerem um trabalho diferenciado. Defende-se ainda que desta maneira pode ocorrer uma oferta de oportunidades educacionais uniformes e de tratamento do diferente como igual.
De outro lado apontam-se os prejuízos, já que essa solução marginaliza as línguas de sinais e desconsidera as peculiaridades culturais do aluno surdo. Além disso, um dos problemas principais do sistema regular é o despreparo dos professores frente aos alunos e as reduzidas possibilidades de atenção individualizada destes. A questão está no fato de que integrar não é só “alocar” a criança na sala de ensino regular; pois como ela está organizada neste momento, leva a segregação da criança surda mais do que a inclusão.
A opção pela política de integração acompanha um movimento mundial que tem sustentação em documentos como a “Declaração de Salamanca” (1994). O movimento de Inclusão, tem como meta não deixar nenhum aluno fora do ensino regular, desde o início da escolarização, propondo que a escola é quem deve se adaptar ao aluno. Inclusão, nesse contexto, implica o compromisso que a escola deve assumir de educar cada criança. Assim, a proposta de inclusão contempla a pedagogia da diversidade, pois todos os alunos deverão estar dentro da escola regular, independente de sua origem social, étnica ou lingüística.
Deste modo, a implementação da inclusão pressupõe um modelo no qual cada criança é importante para garantir a riqueza do todo, ou seja, é desejável que na classe regular haja todo tipo de aluno para que o grupo se enriqueça. Para tal, a escola deve ser criativa no sentido de buscar soluções visando a manutenção desse aluno no espaço da sala de aula regular, levando-o a obter resultados satisfatórios em seu desempenho acadêmico e social (Mazzota, 1996). Todavia, tais resultados satisfatórios só podem ser alcançados pela criança com necessidades especiais se no espaço escolar for contemplada sua condição lingüística, cultural e curricular especiais.
Quando se opta pela inserção do aluno surdo na escola regular, esta precisa ser feita com muitos cuidados que visem garantir sua possibilidade de acesso aos conhecimentos que estão sendo trabalhados, além do respeito por sua condição lingüistica e por seu modo peculiar de funcionamento. Isso não parece fácil de ser alcançado e, em geral, vários desses aspectos não são contemplados. A criança, freqüentemente, não é atendida em sua condição sócio-lingüística especial, não são feitas concessões metodológicas que levem em conta sua surdez, o currículo não é repensado visando incorporar aspectos significativos à ótica da pessoa surda, culminando com um desajuste sócio-educacional..
Na busca de solucionar ao menos parte desses problemas, em contextos em que a educação inclusiva se faz imperiosa (ou por força de lei, ou por impossibilidade de outras opções educacionais), surgem propostas de haver um reconhecimento de que os alunos surdos necessitam de apoio específico, de forma permanente ou temporária, para alcançar os objetivos finais da educação e, então, devem ser oferecidos, por exemplo, apoios tecnológicos e humanos que contemplem de fato suas possibilidades (Volterra, 1994). Um desses apoios humanos é o intérprete de Língua de Sinais, o qual foi incorporado, por exemplo, há poucos anos em experiências de educação integradora na América Latina, inicialmente a nível de ensino médio e universitário, como discute Famularo (1999).
Quando se insere um intérprete de Língua de Sinais na sala de aula abre-se a possibilidade do aluno surdo poder receber a informação escolar em sinais, através de uma pessoa com competência nesta língua. Contudo, é preciso que se leve em consideração (especialmente na realidade brasileira) que, a presença da Língua de Sinais não é garantia de que a criança surda apreenda facilmente os conteúdos, porque nem sempre ela conhece essa língua, ou possui interlocutores capazes de inseri-la nesse universo lingüístico.
Crianças surdas filhas de pais ouvintes, que são a maioria dos surdos, muitas vezes, entram
em contato apenas tardiamente com a Língua de Sinais e a comunidade surda. Todavia, o acesso e o contato com essa língua, no espaço escolar, pode favorecer o desenvolvimento e
a aquisição de novos conhecimentos de forma mais ampla e adequada, afetando inclusive a
aceitação da família para a aproximação com comunidade de surdos.
Com a presença do intérprete de Língua de Sinais em sala de aula, o professor ouvinte pode ministrar suas aulas sem preocupar-se em como passar esta ou aquela informação em sinais, atuando normalmente na língua que tem domínio. (O que nem sempre é observado nas classes regulares em que são inseridos alunos surdos. O professor, sem conseguir comunicar-se com a criança surda, simplifica conteúdos, modifica suas exigências, dadas as dificuldades de interação com esse aluno.)
Esta prática, usada em diversos países (especialmente nos Estados Unidos), abre a possibilidade de uma série de discussões frente a educação dos surdos. De um lado, o espaço escolar tradicional passa a aceitar que outra língua circule no meio acadêmico, além
daquela de domínio do grupo majoritário (ouvinte), indicando uma certa concessão frente à
diferença lingüística do outro, dando inclusive à Língua de Sinais um 'status' social de pertinência. O surdo é, então, valorizado em sua língua e um intérprete (competente em sinais) é quem, através dos sinais, propicia seu acesso aos conhecimentos acadêmicos. E, ao mesmo tempo, o aluno surdo pode partilhar dos temas acadêmicos de forma integral e não de forma reduzida, especialmente criada para ele, como é freqüente nos espaços de educação especial (Vygotsky, 1986). O surdo tem acesso aos conhecimentos da cultura do grupo majoritário ao qual pertence através de uma língua que ele domina.
Na medida em que a condição lingüística especial do surdo é respeitada, aumentam as chances de ele desenvolver-se e construir novos conhecimentos de maneira satisfatória, em contraponto a uma ‘integração escolar’ sem qualquer cuidado especial.
Por outro lado, a inserção de um intérprete de Língua de Sinais em sala de aula não garante que outras necessidades da pessoa surda, também concernentes à sua educação, sejam contempladas. A presença do intérprete não assegura que questões metodológicas, levando em conta os processos próprios de acesso ao conhecimento, sejam consideradas ou que o currículo escolar sofra ajustes para contemplar peculiaridades e aspectos culturais da comunidade surda. Por fim, não há garantia de que o espaço sócio-educacional em um sentido amplo, seja necessariamente adequado a criança surda, já que ela poderá permanecer, de certa forma, às margens da vida escolar.
Em relação à construção da identidade surda, esse espaço educacional também mostra-se pouco propício, uma vez que a criança surda estará, em geral, sozinha (em sua condição de não ouvinte), sem contato com outros surdos, coetâneos ou adultos, o que favoreceria a construção de uma imagem positiva em relação a sua surdez (Perlin, 1998).
Assim sendo, quando o recurso de escolarização disponível é a inserção da criança surda em uma sala de ouvintes acompanhada por um intérprete de LIBRAS, como é o caso do sujeito focalizado nesse estudo, muitos aspectos precisam ser considerados buscando compreender se tal inserção de fato propícia o desenvolvimento educacional tão almejado.

A CRIANÇA SURDA, O INTÉRPRETE DE LIBRAS E A SALA DE AULA

Este estudo se propõe a analisar de forma mais pormenorizada a experiência de uma sala de aula regular na qual foi inserida uma criança surda e uma intérprete de Língua de Sinais. Nos anos de 1996 a 1998 pode-se observar o desenvolvimento e evolução dessa criança, agora com 10 anos de idade, freqüentando uma classe regular de pré-escola/1ª série/2ªsérie do ensino fundamental em uma escola para alunos ouvintes. A criança focalizada é portadora de surdez profunda bilateral, filha de pais ouvintes, não tem domínio do português falado e é usuária da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS)1. Ela foi acompanhada em suas atividades diárias na escola por uma intérprete de LIBRAS, que é também professora de surdos e tem o português como sua língua materna.
Tal experiência possibilitou a elaboração de um projeto de pesquisa, ora em desenvolvimento, visando investigar a dinâmica e peculiaridades das relações pedagógicas aí estabelecidas, bem como colaborar para a discussão da problemática educacional dos sujeitos surdos (Projeto FAPESP Proc. n. 98/02861-1).
Neste trabalho, o foco de análise é a organização do trabalho pedagógico, a metodologia de ensino escolhida para ministrar certos conteúdos acadêmicos. A prática pedagógica pode revelar uma imagem de aluno e um projeto educacional que interessa ser melhor compreendido quando o ambiente pedagógico se diz inclusivo.
Para o desenvolvimento da pesquisa, fez-se necessário um trabalho de campo, com o objetivo de criar um banco de dados que permitisse uma análise satisfatória da situação geral a ser investigada. Para isso, realizaram-se vídeo-gravações na sala de aula freqüentada pela criança surda. Os registros foram transcritos integralmente, respeitando-se a linguagem oral da professora e dos alunos ouvintes, além dos sinais e gestos produzidos para a comunicação com a criança surda2.

A INCLUSÃO E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO

Para este estudo foram selecionadas três atividades realizadas em classe que serão aqui apresentadas com o interesse de discutir formas de organização do trabalho pedagógico numa sala de aula que abriga uma criança surda.

1 A criança adquiriu a LIBRAS através do contato com intérprete de língua de sinais e surdos adultos. Tal
contato foi promovido, a partir dos 6 anos de idade, por iniciativa da nova fonoaudióloga da criança com
consentimento e envolvimento da família.
2 Para a transcrição foram usados os parâmetros e a legenda proposta por Lacerda (1996): (entre parênteses)
estão gestos ou comportamentos dos interlocutores, /ENTRE BARRAS E EM CAIXA ALTA/ estão os sinais da
LIBRAS, "entre aspas e em itálico" estão as falas entre os interlocutores.

A inserção da criança surda juntamente com uma intérprete visa garantir o acesso aos conhecimentos que estão sendo trabalhados através da língua de sinais. Todavia a atenção a sua condição lingüística especial não é o único aspecto que precisa ser levado em conta no contexto de educação inclusiva.

Situação 13- Professora lê o enunciado de um exercício que foi tarefa de casa, no momento da correção em
sala de aula.
P – “...Pedrinho recebeu uma lista com nomes de frutas para comprar na feira, mas era uma lista
enigmática, nem todas as frutas eram para ser compradas. Pegue o carrinho e descubra que frutas
ele deve comprar.
Então, lá atrás, na outra página, vai ter as frutas que ele comprou e as frutas que não comprou”
I – (para G) /HOMEM/ /PEGAR/ /LISTA/ /FRUTA/ /COMPRAR//FEIRA/ /MAS/? /NÃO SABER/
/QUAL/ /FRUTA/ /PENSAR/ /QUAL/ /FRUTA/ /PRECISAR/ /COMPRAR/ (Faz gesto
interrogativo)
P – (vira-se para lousa, divide-a em duas colunas: frutas compradas e frutas não compradas).
I – (aponta para a coluna 1, correspondente às frutas compradas)
G – (Não olha para I )
I - (para G) /O QUÊ/ (aponta para a coluna 1)
G – (olha para lousa e movimenta a cabeça negativamente)
........
P – “Vamo lá, Gabriela, fala quais as frutas que ele comprou”
Alunos – “abacaxi, limão”
I – (para G) /ABACAXI/ /TER/ /AÍ/ (Aponta para o livro de G) /ABACAXI/
Ga – “Melão”
P – “Melão”
I – (Para G) /AZEDO/ /L/ /I/ /M/ /Ã/ /O/
........
P – “Agora as que ele não comprou. Antônio, vamos ouvir a Bia falar agora? Então vai Bia, quais ele
não comprou?”
B – “ Laranja, mexerica....”
.....
B – “ morango, graviola, banana e nectarina”
G – (movimenta a cabeça negativamente)
I – (para G) /LARANJA/ /O QUÊ/?
G – ( Movimenta a cabeça negativamente)
I – (para G) /VOCÊ/ /NÃO/ /QUERER/ /PORQUE/? /SABER/ (aponta para a coluna 2) /LARANJA/
/MEXIRICA/ (Aponta para a lousa) /PERA/ (aponta para lousa)
G – (para I) /UVA/
.........
P – “Qual é o segredo? Eu dei uma dica ontem falando que tinha haver com a sílaba tônica”.
An – “Todas as palavras que ele comprou, tem sílaba tônica na última sílaba.”
Na – “Que todas que ele comprou tem sílaba tônica na última sílaba”
I – (para G) /M/ /MORANGO/ /VERMELHO/ /LEMBRAR/ /UVA/ (aponta para lousa) /TER/
/TODOS/ /NOMES/ /ESCREVER/ / JÁ/ (aponta para lousa)
G – (Olha para o livro e escreve)
P – “Na última, então vamos lá. A abacaxi, é na última? (circula a última sílaba /xi/) limão (circula a
sílaba /mão/)
I – (movimenta mão para chamar G, aponta para a lousa) /MAIS/ /FORTE/ /PALAVRA/ /FORTE/
3 G é a crianças surda, P a professora, I a intérprete e as demais iniciais referem-se à alunos ouvintes da
classe.
9
/PEDAÇO/ /FORTE/
P – “ Melão” (circula a sílaba /lão/) “Caqui, maçã, cajá, maracujá, mamão.”
I – ( Bate o pé no chão para marcar a sílaba mais forte) “Cajá, maracujá.” /JÁ/ /FORTE/ (Aponta para
lousa) /PEDAÇO/
P - “Todas essas daqui a sílaba tônica é a ultima?”
AL - “É”
P - “Não é uma regra que está certa?”
I - (para G) /FORTE/ (Aponta para a coluna 1) /PEDAÇO/
G - (olha para a lousa com expressão de indiferença)

O episódio transcrito foi apresentado com alguns cortes apenas com a intenção de não cansar o leitor. A proposta da lição de casa era que os alunos descobrissem qual a lógica/segredo que regia a lista de frutas a ser ou não comprada. A lógica implicava em perceber que todas as frutas/palavras ‘compradas’ tinham a mesma acentuação tônica.
O que se pode supor é que ao se pensar/propor essa atividade, a criança surda não foi lembrada. Para ela não há como fazer sentido de uma atividade que pretende identificar sílabas tônicas de palavras que ela não fala e não ouve. A intérprete vai interpretando de forma mais ou menos completa os conteúdos discutidos pela professora e pelos alunos, mas G demonstra não compreender o sentido daquelas informações, mostrando-se desinteressado. Ainda que a Língua de Sinais esteja presente o conteúdo tal como foi proposto dificilmente será apreendido pela criança.
O problema principal está no modo como a atividade pedagógica foi organizada. O conhecimento sobre sílabas tônicas, sobre determinados aspectos da gramática da Língua Portuguesa, só pode ser percebido pelas crianças ouvintes porque elas são falantes/usuárias
da língua e podem observar sua própria produção (Cagliari, 1999). A tarefa solicitada ao
aluno surdo, tal como foi apresentada não é factível, dada a sua condição lingüística. Se o
conhecimento a cerca da tonicidade das palavras na Língua Portuguesa é importante para o
aluno surdo4 ele precisa ser ministrado em outras bases, é preciso que se pense a tarefa acadêmica de uma maneira especial, levando em conta a condição lingüistica da criança
surda e seu modo próprio de apreensão do Português.
A questão fundamental para qual é preciso chamar atenção é a forma como o conceito pretendido não foi trabalhado com o aluno surdo. Nem sempre uma atividade pensada/proposta para ouvintes é apropriada para o surdo. É preciso uma consideração especial, uma atenção às suas características e uma organização de atividade que inclua a criança surda e não que a deixe à margem.

SITUAÇÃO 2: A professora antes de iniciar a leitura de um texto para a classe pede atenção dos alunos e dá
algumas instruções.
P - “Gente, olha só página 65, ó gente vamos lá, eu vou ler para vocês o texto. Eu queria que vocês,
enquanto eu leio o texto, (movimenta a mão para chamar G e aponta para a intérprete) que vocês
colocassem o número dos parágrafos. Só que eu queria que vocês numerassem os parágrafos só que
eu estou lendo, porque tem gente que fica numerando os parágrafos aí eu tô na metade do texto,
terminou de numerar o parágrafo mas não adianta. Então, é pra seguir junto comigo, olha lá. Na
página 65, vamos lá Luiz. Aí quando eu terminar a leitura a gente vê quantos parágrafos têm.”
Gu - “Mas aí você fala pra gente os números?”
P - “Não, eu termino o parágrafo e dou um tempinho pra vocês colocarem. Então vamos lá.”
I - (Enquanto a professora orienta os alunos: movimenta os braços para chamar G)
G - ( olha pra I)
I - ( para G) /HISTÓRIA/ /LER/ /HISTÓRA/ /VOCÊ/ /OLHAR PARA MIM/ (vira-se para a lousa
desenha uma abobrinha)

A professora antes de iniciar uma atividade de leitura orienta os alunos a numerarem os parágrafos conforme fossem sendo lidos. Ela parece adotar essa estratégia para manter os alunos atentos ao texto, acompanhando-o. Contudo, a ordem da professora é incompatível com as possibilidades efetivas de participação e atenção da criança surda.
Para G ‘ouvir’ o texto ele precisa olhar para a intérprete, e para numerá-lo precisa olhar para o texto. G, então tem a tarefa de olhar para a intérprete e para o texto ao mesmo tempo. A intérprete, nesse momento, não traduz para G a informação a respeito da numeração dos parágrafos. Apenas alertá-o em relação a necessidade de atenção para a leitura (talvez antevendo sua dificuldade, ou preocupada com a compreensão do texto que na situação é mais importante que a numeração de parágrafos).

Seqüência da situação 2
G- (Vê a movimentação das crianças pegando lápis, ele pega também e observa o que a colega ao lado
faz)
.......
P- (A professora olha para G e sinaliza) /OLHAR/ /ELA/ (aponta para I)
I - (movimenta os braços para chamar G)
G- (olha para I)
I - (para G) /PENSAR/ /PRECISAR/ /PENSAR/ /HISTÓRIA/
G- (mostra seu livro para I e indica a numeração dos parágrafos)
I - (para G) /VOCÊ/ /CONTAR/ /DEPOIS/ /FALAR/ /HISTÓRIA/ /VOCÊ/
G- (escreve em seu livro e não olha para I)
4 Essa é uma discussão que envolve a questão do currículo adequado para alunos surdos, discussão que
precisa ser feita, mas que, todavia não é o propósito desse estudo. Para o assunto conferir Lunardi (1998).


Professora e intérprete tentam chamar a atenção de G para a importância de olhar para a intérprete e receber a informação que está sendo passada. G, por sua vez, mostra-se alheio a esse pedido/convite e demonstra estar seguro em continuar realizando uma certa atividade em seu livro. G, sem dar atenção à intérprete, percebe o movimento de seus colegas, olha o livro da aluna que está a seu lado e inicia a atividade de marcar os parágrafos, sem ater-se a intérprete que contava para ele a história lida pela professora.
A ordem dada pela professora era bastante factível para um público ouvinte, mas não para um surdo, pois, pela proposta seria necessário que ele olhasse para a intérprete e para o livro ao mesmo tempo. A intérprete tenta persuadi-lo a ficar atento a sua interpretação, mas ele, que parecia desconhecer que havia duas tarefas a serem realizadas, mostra-se convencido do que teria que realizar e não dá qualquer atenção a intérprete.
G procura relacionar-se com a professora e com a atividade escolar da mesma maneira que as demais crianças. Ele faz o que todos fazem (segundo sua percepção visual), sem contudo, chegar aos mesmos resultados. A estratégia usada para manter a atenção para a leitura (para ouvintes) gera total desatenção para a história lida para o aluno surdo.
O episódio evidencia, mais uma vez, como a metodologia utilizada para ensinar crianças ouvintes nem sempre pode ser aplicada aos surdos, mesmo para aqueles que têm a Língua de Sinais mediando as relações educacionais. A professora ao dar a ordem não se dá conta da dificuldade adicional que impõe à criança surda. O episódio explicita a necessidade de serem pensadas cuidadosamente metodologias a serem implementadas no contexto da inclusão, para que os insucessos pedagógicos não sejam falsamente justificados por um desinteresse/desatenção por parte da criança surda.

Situação 3 – A professora anuncia que lerá um livro para a classe. A intérprete apresenta a proposta para G.
I- (para G) /ELA/ (aponta para P) /PATRÍCIA/ /LER/ /LIVRO/
G- /FALAR/ /NÃO/ (movimenta a cabeça negativamente)
I- (para G) /NÃO/ /FALAR/
G- (movimenta a cabeça negativamente)
I- (para G) /ELA/ (aponta para P) /LER/ /ENTENDER/ /COMO/
G- (movimenta a cabeça negativamente)
I- (para G) /DEPOIS/ /VOCÊ/ /OLHAR/ /LIVRO/ /ELA/ /LER/ /VOCÊ/ /ACOMPANHAR/
/ELES/ (aponta para alunos) /PRESTAR ATENÇÃO/ /NELA/ (aponta para P) /AGORA/
(movimenta a cabeça afirmativamente)
G- (apoia a cabeça nas mãos fechadas)
I- (para G) /PORQUE/ /PREGUIÇA/ /PORQUE/ (movimenta as mãos interrogativamente)
G- (movimenta a cabeça negativamente)
12

Antes que a atividade de leitura se inicie G demonstra desinteresse em relação à ela. A intérprete tenta convencê-lo da importância da atividade, ou de que ele será capaz de acompanhá-la, mas não tem sucesso. Ela comenta sobre ‘olhar o livro’, mas só após a leitura. G parece antever a dificuldade que a atividade de leitura configura e resiste a ela, provavelmente motivado por experiências anteriores em sala de aula.

Seqüência da situação 3
P- “Você sabe quem é curupira?”
Al- “ Sei”
I- (para G) /VOCÊ/ /SABER/ /QUEM/ /ÍNDIO/ /SABER/ (ela aponta para P)
P- “ Ele é....”
Al- “Nunca ouvi falar”
.......
P- “Ele é o protetor das nossas florestas e dos animais. É pequeno como um menino e tem pés virados
prá trás. Por isso, suas pegadas no chão da floresta nos dão sempre a impressão de que ele está
caminhando numa direção, quando nas verdade está indo em outra. Ele não tem o pé prá trás? Ele
quase sempre anda montado num porco.”
I- ( para G) /QUASE/ /SEMPRE/ /ÍNDIO/ /MENINO/ /MONTAR/ /PORCO/
......
P- “Depois eu deixo passar para vocês olharem melhor o texto, tá bom?”
I- /LÁ/ (aponta para o livro) /MONTAR/ /PORCO/ /LÁ/ (aponta para o livro) /SELVAGEM/ /ELES/
/LÁ/ (aponta para o livro)
P- (olha para G e faz um movimento com a mão esquerda de baixo para cima como se animasse G)
G- (continua desanimado, com a cabeça apoiada sobre as mãos)
......
P- “O Curupira protege todos os animaizinhos que vivem na natureza. Por isso, ele não gosta de
caçadores e nem de meninos que andam armados de estilingue para matar passarinhos”.
I- (para G) /ELA/ ( aponta para P) /ÍNDIO/ NÃO GOSTA/ /HOMEM/ /MATAR/ /ANIMAIS/ /NÃO
GOSTA/ /MENINOS/ /MATAR/ /PASSARINHO/ /NÃO GOSTA/ /PORQUE/ /ELE/ (referindo-se
ao índio) /NÃO GOSTA/
P- “Ele não impede que um animal mate outro para se alimentar, portanto não gosta de matança sem
proveito. Ele acha que se for para matar é só para comer. Também não gosta quando são mortos
muitos animais de uma mesma espécie, causando seu desaparecimento”.
I- (para G) /ELE/ (referindo-se ao índio) /NÃO GOSTA/ /OUTRO/ /ANIMAL/ /COMER/ /LEÃO/
/COMER/.
G- (está distraído)
I- (para G) /ELE/ (aponta para o livro) /NÃO GOSTA/ /LEÃO/ /COMER/ /COELHO/ /NÃO GOSTA/
/SÓ/
G- ( não olha para I)
I- (espera)
G- (olha para I)
I- (para G) /SÓ/ /PODER/ /MATAR/ /OUTRO/ /ANIMAL/ /COMER/ /SÓ/
G- (distrai-se)
I- (faz um movimento interrogativo com as mãos) /O QUÊ/? /OLHOS/ (faz um movimento circular
com a cabeça) / O QUE/?
G- (continua apoiando a cabeça sobre as mãos, movimenta a cabeça negativamente)

Autores interessados nos processos de aprendizagem de leitura pelas crianças surdas discutem o quanto esse processo pode ser facilitado quando a criança dispõe de informações visuais que a auxiliem na compreensão do texto lido (Ardito, 1998). O apoio na informação visual também é importante para as crianças ouvintes quando lêem contudo, como no episódio a história é lida pela professora, tal apoio torna-se menos imprescindível.
A professora se propõe a ler uma história sobre o Curupira, sem organizar uma estratégia de leitura que contemple mais amplamente as necessidades da criança surda. O livro fica em suas mãos, ela não o oferece para que seja visto antes da leitura, nem proporciona uma boa visualização das imagens durante a leitura. Promete apenas que depois passará o material para que seja visto. A professora parece acreditar que as crianças se interessarão pelo conteúdo da história e a lê com ênfase, variações na entonação, procurando manter a atenção dos alunos.
G desde o início não se mostra interessado pela atividade. A intérprete procura motivá-lo, mas observando-se a transcrição são inúmeros os momentos em que ele se distrai, foca atenção em outra coisa, não mantendo o contato de olho com a interprete que é essencial para a comunicação através da LIBRAS. A professora, percebendo também o desinteresse e desatenção de G procura chamar a atenção dele, procurando motivá-lo sem sucesso. Ambas procuram motivá-lo cobrando sua atenção, todavia não há uma organização pedagógica articulada que efetivamente o motive para a atividade.
Além disso, durante a leitura é possível observar que os alunos ouvintes não permanecem parados, atentos à professora, enquanto ouvem a história. Eles se movimentam, fazem movimentos com as mãos, mexem em lápis ou borrachas, escorregam da cadeira, fazendo outras pequenas atividades durante a leitura da professora.
G observa as crianças e vê os amigos em movimento (realizando pequenas atividades) e, ao mesmo tempo, é solicitado a ele que permaneça parado, atento à intérprete. Parece justo pensar que ele deseje se comportar como os demais, movimentando-se, ainda que isso lhe custe a compreensão do texto lido. As diferenças de postura implicadas pela surdez e pela Língua de Sinais, por vezes, parecem pouco claras para o aluno surdo, talvez porque estejam também pouco claras no espaço de sala de aula, como mostram os episódios apresentados aqui.
Além disso, a história lida parece fazer pouco sentido para ele. O conceito de Curupira, personagem central da história, não foi construído previamente, a intérprete negocia tal conceito no mesmo instante em que está sendo lida a história e isso parece tornar as compreensão ainda mais complexa. É solicitada sua atenção, mas na verdade vários aspectos concorrem para que ele se desvie do objetivo almejado. Muitos desses aspectos deflagrados pela própria estratégia pedagógica utilizada.

Seqüência da situação 3
I- (toca G) /PORQUE/ / NÃO/ /PORQUE/ (pega o livro de histórias contada pela professora)
G- (movimenta a cabeça negativamente)
I- (para G) /OLHAR/ (pega o livro)
G- (movimenta a cabeça negativamente)
I- (guarda alguns papéis que estavam sobre a mesa de G) /OLHAR/ (aponta para o livro, movimenta a
cabeça afirmativamente) /JÓIA/?
G- (faz semblante de desânimo, aponta para o livro e desenha na mesa – com os dedos)
I- (faz semblante interrogativo) /VOCÊ/ /QUERER/ (oferece o livro)?
G- (movimenta a cabeça afirmativamente)
I- (para G) /ESPERAR/ (toca G)
G- (olha para a I)
I- (para G) /OLHAR/ (aponta para o livro)
G- (pega o livro)
I- (para G) /OLHAR/
G- (começa a olhar as páginas do livro, logo na primeira página, aponta para o Curupira, olha para I)
I- (aponta para os pés do índio, leva as mãos à boca, sorri)
G- (vira-se para trás, olha para a câmera filmadora, sorri, vai até uma das auxiliares da pesquisa,
mostra-lhe o índio, aponta para o seu pé, sorri, faz vocalizações, faz um movimento com a mão
direita, indicando que os pés do índio são virados para trás, sorri entusiasmado)
P- (está chamando a atenção dos alunos)
Ant- (vai até G para ver a figura)
G- (mostra a figura para Ant., sorri, volta para a sua mesa)
I- (faz um movimento em que as palmas das mãos estão viradas para baixo , com os dedos virados para
o seu corpo, simulando o andar do índio)
G- (senta-se, sorri, olha para o livro)
I- (põe a mão sobre o livro)
G- (vira uma página do livro)
I- (para G) /O QUÊ/? (movimenta as mãos interrogativamente)
G- (para I) /COMER/ (aponta para o livro)
I- (para G) /COMER/ /FRUTA/ (aponta para outras figuras e faz expressão interrogativa)
G- (para I) /NÃO/ (olha para o livro, para a I) /COMER/
I- (aponta para outra figura do livro)
G- (para I) /CARNE/
I- (movimenta a cabeça afirmativamente, aponta para outra figura)
G- (para I) /ANIMAL/
I- (aponta para G, concordando com este, movimenta a cabeça negativamente)
G- (vira mais uma página do livro)
I- (aponta para uma figura)
G- (tenta passar para outra página)
I- (para G) /COMER/ /(aponta para o livro)
G- (para I) /FOLHA/

Terminada a leitura a professora propõe que os alunos escrevam sua opinião a respeito da história. Como G havia acompanhado apenas parcialmente a leitura, a intérprete e a professora concordam em tentar resgatar/refazer essa atividade de modo diferente. A intérprete então vai até ele com o livro e propõe que ele olhe/folheie-o, buscando motivá-lo. O interesse de G então renasce, quando a atividade de leitura é perpassada pela informação visual, pelas figuras do livro. Ele ao visualizar os elementos da história parece fazer sentido deles, compreender melhor (o que é o Curupira, por exemplo) e se interessar muito mais. A intérprete pode então trabalhar os conteúdos que eram o objetivo da atividade pedagógica. Esse episódio revela que a estratégia pedagógica utilizada faz diferença, se a estratégia é mais ou menos adequada pode levar a processos de maior ou menor construção de conhecimentos. Se o material visual tivesse sido explorado adequadamente inicialmente, possibilitando o acesso a certas informações, posteriormente é provável que ele tivesse maior interesse e atenção para a atividade de leitura. È novamente a estratégia de aula, o modo de organizar as atividades pedagógicas que é pensado para ouvintes, sem levar em conta a criança surda e suas características.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do cotidiano no contexto da escola inclusiva pode revelar como a Inclusão, por vezes, é desejada mas não efetivamente alcançada. Repensar o modo como são organizadas as práticas pedagógicas com esse fim, implica em um projeto educacional amplo que assuma a Surdez e suas peculiaridades em seu bojo. Não basta aceitar a criança surda na sala de aula, ou respeitar sua condição bilingüe assumindo a Língua de Sinais nesse espaço se a questão da Surdez não for considerada de forma integral. É preciso um projeto educacional comprometido que reveja as estratégias pedagógicas, a organização do espaço acadêmico, o currículo proposto de maneira a contemplar as necessidades e características da comunidade Surda.
A responsabilidade maior é estar atento aos discursos que pregam as ‘maravilhas’ da Inclusão sem qualquer atenção aos reais obstáculos que se apresentam a sua implementação. A Educação Inclusiva pode, ao invés de incluir, trazer graves prejuízos ao desenvolvimento dos surdos individualmente, da comunidade surda como grupo social e da Educação enquanto projeto político responsável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARDITO, B Giochi di segni e parole. Milão: Franco Angeli, 1998.
BOTELHO, P. Segredos e Silêncios na Interpretação dos Surdos. Belo Horizonte:
Autêntica, 1998.
CAGLIARI, L.C. Alfabetizando sem o Ba-Be-Bi-Bo-Bu. São Paulo: Scipione, 1999.
DECLARAÇÃO de Salamanca e linhas de ação sobre necessidades educativas
especiais.7-10 de junho de 1994. Brasília: CORDE, 1994.
FAMULARO, R.- Intervencíon del intérprete de lengua de señas/ lengua oral em el
contrato pedagógico de la integracion, In SKLIAR, C (org.).- Atualidade da
Educação Bilingüe para Surdos, Porto Alegre: Ed. Mediação, 1999.
GÓES,M.C.R. de. Linguagem, Surdez e Educação. Campinas/ SP, Editora Autores
Associados, 1996.
LACERDA, C.B.F. de Os Processo Dialógicos entre Aluno Surdo e Educador
Ouvinte: Examinando a Construção de Conhecimentos. Tese de Doutorado,
UNICAMP: Campinas/ São Paulo, 1996.
LACERDA, C.B.F. de A Criança Surda e a Língua de Sinais no Contexto de uma Sala
de Aula de Alunos Ouvintes. Relatório Parcial do Projeto de Pesquisa FAPESP
Proc. n. 98/02861-1, 1999.
LEWIS, W et all. Bilingual Teaching of Deaf Children in Denmark, Aalborg:
Doveskolernes Materialecenter, 1995.
LUNARDI, M. Educação de Surdos e Currículo: um campo de lutas e conflitos.
Dissertação de Mestrado em Educação, Universidade Federal de Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, 1998.
MAZZOTA, M.J.S. Educação especial no Brasil: história e políticas. São Paulo: Cortez
Ed., 1996.
MARCHESI, A . A Educação da Criança Surda na Escola Integradora, In COLL, C.
PALÁCIOS, J. E MARCHESI, A . Desenvolvimento Psicológico e Educação-
Necessidades Educativas Especiais e Aprendizagem Escolar, Porto Alegre: Artes
Médicas, 1995.
MORO, E. T. L. D. Educação Especial: História, Discurso Político e Realidades do
Processo de Integração do Portador de Deficiência Auditiva em Campo
Grande Mato Grosso do Sul. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul,
Dissertação de Mestrado, 1997.
17
PERLIN, G. Identidades Surdas. En C. Skliar (Org.): A Surdez. Um olhar sobre as
diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998.
SKLIAR, C. (org.)- Educação e Exclusão: Abordagens sócio-antropológicas em
Educação Especial. Porto Alegre: Ed. Mediação, 1997
SOUZA, R.M. de - Que palavra que te falta? Tese de Doutorado, Instituto de Estudos da
Linguagem, UNICAMP, Campinas, 1996
VOLTERRA, V.- Linguaggio e sorditá – parole e segni per l’ educazione dei sordi.
Firenzi: La Nuova Itália, 1994.
VYGOTSKY, L.S.- Fondamenti di Difettologia. Roma: Bulzoni, 1986.