Marina S. Rodrigues Almeida
Consultora em Educação Inclusiva
Psicóloga e Pedagoga especialista
Instituto Inclusão Brasil
inclusao.brasil@iron.com.br
A Escola da Ponte é uma instituição pública de ensino que existe há 25 anos, localizada em Vila da Aves, Portugal. A faixa etária dos alunos compreende aproximadamente dos 5 aos 13 anos de idade. No entanto, devido à sua filosofia de Educação Inclusiva, a escola tem alguns alunos mais velhos.
Atualmente, a Escola da Ponte conta com cerca de 160 alunos e 29 orientadores educativos. A Escola surgiu do desejo de se fazer uma escola que respeitasse as diferenças individuais e tratasse os alunos com
AMOR.
Na Escola da Ponte não existem turmas separadas por idade ou escolaridade, nem lugar fixo ou sala de aula. Os alunos, organizados em pequenos grupos com interesse comum, reúnem-se com o professor em grandes galpões e desenvolvem programas de trabalho de 15 dias. Avaliam o que aprendem e formam novos grupos.
A Escola da Ponte é revolucionária, libertária, solidária, serve de referência em todo o mundo quando o assunto é educação. Seu dirigente, foi o educador Prof. José Pacheco.
Prof. José Pacheco relata que, a necessidade de inovar surgiu por razões comezinhas. Em 1976, a Escola da Ponte defrontava-se com um complexo conjunto de problemas: seu isolamento ante a comunidade de contexto, o isolamento dos professores dentro da escola, sutis ou claras manifestações de exclusão escolar e social, indisciplina, ausência de um verdadeiro projeto e de reflexão crítica sobre as práticas. Estava cativa da hegemonia de metodologias centradas no professor, as instalações eram decrépitas e insalubres. Bastará dizer que o banheiro estava em ruínas e não tinha porta. Satisfazer às necessidades mais elementares constituía um teste de entreajuda: as alunas iam lá fora em pequenos grupos, fazia-se a parede e a porta num círculo humano em torno da necessitada, para gerar alguma intimidade...
Pacheco diz...
“Como tenho por hábito comentar, talvez tenha sido por razões tão elementares (tão humanas...) que um dos valores que constituem a matriz axiológica do projeto emergiu: a solidariedade. Haverá mais solidariedade que o fraterno assegurar da necessária intimidade?...
Os projetos partem de pequenos gestos. E só professores que não se interrogam poderiam consentir que as crianças continuassem a (sobre) viver num cotidiano escolar que roçava o limiar da sobrevivência. Quando ficou garantido o conforto dos corpos, o reconforto das almas veio por acréscimo. O projeto cresceu, prosperou, sofreu ataques que visavam destruí-lo, resistiu e consolidou-se.”
Pacheco explica que há muitos anos, nunca ninguém conseguiu explicar-nos por que haver separação entre as classes, nós a eliminamos. Fizemos uma ruptura quase total com a tradicional organização do trabalho escolar. Mas, se o "tradicional" traz bons resultados em outras escolas, ainda bem. Aliás, não dispensamos alguns dos seus contributos. Nem nos deixamos deslumbrar pelas "soluções" encontradas. Apesar de as histórias de vida dos ex-alunos serem feitas de realização pessoal e de excelentes desempenhos acadêmicos nas escolas para onde transitaram, apesar de tudo o que foi construído ao longo de quase três décadas, estamos sempre animados com o "brilho dos inícios"...
O projeto da Escola da Ponte é, de certo modo, um projeto eclético, por adotar contributos de diferentes origens, modelos, autores, correntes teóricas.
"É nossa convicção que um projeto só poderá encontrar sentido e sustentabilidade se for escorado numa permanente interrogação das suas práticas e escapar à vertigem de fundamentalismos pedagógicos. Todo o contributo que faça sentido no hic et nunc do projeto é integrado, avaliado, transformado em função do contexto e seres-autores. Rejeitamos as teorias, propostas metodológicas, os modelos, as "modas", por mais bem embrulhadas e recomendadas que cheguem até nós, se não fizerem sentido. É só isso: o quanto baste de sensibilidade e bom senso. Portanto, nada foi inventado na Escola da Ponte."
“Percebemos que precisávamos mais de interrogações que de certezas, definimos como objetivos: concretizar uma efetiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garantisse as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos; promover a autonomia e a solidariedade; intensificar a cooperação.”
Foi indispensável alterar a organização da escola, interrogar práticas educativas dominantes. E, pelo caminho foram utilizadas experiências e teórias, de Paulo Freire, Piaget, Dewey, Montessori, Ferrer, Neil, Carl Rogers, Vigotsky, Stenhouse, Agostinho da Silva, Rudolph Steiner, Freinet, e muitos outros.
Os ex-alunos da escola são hoje, em grande parte, os pais dos atuais alunos da Ponte. Suas histórias de vida são, na sua maioria, de sucesso, realização pessoal e social, observando-se em muitos uma participação cívica bem acima do comum.
Hoje, a Ponte é uma escola da 1ª à 9ª série, mas, durante 25 anos, foi uma escola até a 4ª série. Os alunos que, ano após ano, saíam para a 5ª série revelaram sempre grande capacidade de adaptação à nova realidade.
A transição entre diferentes escolas produz sempre rupturas traumáticas e desgaste, mas os alunos da Ponte que transitavam para a 5ª série numa outra escola foram se adaptando.
Era a nova escola que não se adaptava a esses alunos... Por outro lado, as crianças manifestavam uma espécie de "esquizofrenia", uma "dupla personalidade", pois agiam em conformidade com diferentes regras em diferentes contextos. Seu desenvolvimento sócio-emocional, sócio-moral ou afetivo padecia alguns percalços. E que dizer das aprendizagens do domínio cognitivo? Fica para pensar.
Em 2003, o Ministério da Educação de Portugal encomendou a uma equipe da Universidade de Coimbra uma avaliação da Escola da Ponte. Entre outras conclusões extraídas do relatório de avaliação, ressalta um trabalho estatístico realizado com as notas de pauta atribuídas pelos professores, em cada trimestre dos últimos 20 anos. Isto é, foram comparados os resultados obtidos pelos ex-alunos da Escola da Ponte com as classificações obtidas pelos alunos oriundos de outras 20 escolas que a escola de 5ª série acolheu.
Os avaliadores concluíram que os ex-alunos da Ponte obtiveram melhores resultados no currículo de 5ª série que os ex-alunos de outras escolas. Concluíram que a fundamentação teórica da Escola da Ponte, é baseada na educação libertária de Tolstoi, Dewey, Goldstine, Edgar Morin, entre outros.
Mas esta constatação que para os governantes foi decisiva para o apoio que agora disponibilizam ao projeto.
O método de alfabetização não foi o mais relevante na Escola da Ponte, mas a dimensão política do projeto. O projeto não é neutro, é ideológico. Descobriram que não pode haver ruído nos espaços de aprendizagem e pesquisa. A música é muito suave e muito baixa. Mas tem outra função, bem mais importante, que é o aumento da sensibilidade humana, o desenvolvimento do sentido estético.
Há quase 30 anos a música erudita é ouvida em sala de aula. Os alunos não gostavam, mas não gostavam porque não conheciam.
“Só se ama o que se conhece e nós os levamos a conhecer. Damos àquelas crianças que são pobres, pobres de pedir, e que são jogadas fora de outras escolas, oportunidade de receberem níveis de sensibilidade muito elevada. E hoje temos muitos alunos que são ligados à música como profissão.”
Na Escola da Ponte os pais são pessoas consideradas inteligentes e desejam o melhor para seus filhos. “Quando lhes é explicado o porquê da mudança, compreendem e aceitam a mudança. Quando os pais crescem com o projeto, defendem-no. E, quando muitos pais já são ex-alunos da Ponte, tudo fica mais simples...”
Há estudos de mestrado sobre o trabalho da Escola da Ponte e em relação escola-famílias. Um dos mais importantes dispositivos de intensificação dessa relação é o professor-tutor.
A Associação dos Pais, é realizada no início de cada ano, todos os encarregados de educação (pais ou quem faz o papel de) participam do encontro de apresentação do Plano Anual. Ao longo do ano letivo, os projetos são avaliados mensalmente, com o contributo dos encarregados de educação. Em Portugal, a Associação de Pais da Escola da Ponte é uma referência a nível nacional.
A Escola da Ponte é uma escola pública, mas sua racionalidade e prática nada têm a ver com o modelo de escola pública instituído. A escola contrariou a lei quando ela se opunha a fazer dos alunos seres mais sábios, mais felizes e mais pessoas. A Escola da Ponte transgrediu fundamentando sua transgressão.
Hoje, o Ministério reconhece o elevado valor deste projeto e procura dotá-lo de enquadramento normativo e condições de desenvolvimento. È a única escola que conseguiu conquistar um "contrato de autonomia".
Hoje, a Escola da Ponte, continua com seus inúmeros desafios tanto políticos como educacionais porque é um organismo vivo em permanente mudança e continua a reinvidicar o direito das crianças serem felizes!
Instrumentos ou Dispositivos Pedagógicos da Escola da Ponte:
Definição dos Direitos e Deveres: a cada ano, os alunos decidem democraticamente na Assembleia de Escola os direitos e deveres que consideram fundamentais para aquele ano.
Assembléia de Escola: atividade que reúne todos os alunos e professores, na qual são discutidas, analisadas e votadas medidas para problemas na escola, de forma democrática, solidária, respeitando as regras e visando ao bem comum.
Comissão de Ajuda: é formada por quatro alunos nomeados para resolver os problemas mais graves colocados na Assembleia. Dois desses alunos são escolhidos pelos membros da mesa da Assembleia Geral e outros dois pelos professores. As decisões dessa Comissão se guiam pelos direitos e deveres definidos pelos alunos, que se comprometeram a respeitar o estabelecido.
Debate: tem caráter mais informal que as Assembleias e acontece todos os dias - exceptuando-se os dias de Assembleia Geral -, possuindo duração de trinta minutos. Destina-se à discussão sobre o que se fez durante o dia de trabalho, através de jogos de perguntas e respostas. É nessa ocasião que são preparadas as Assembleia.
Biblioteca: ocupa o espaço comum, da área aberta da Escola, e serve como espaço de encontro e de pesquisa.
Caixinha dos Segredos: local destinado ao desabafo das crianças, que ali depositam seus segredos, que muitas vezes revelam as razões da chamada indisciplina.
Caixinha dos Textos Inventados: local sempre disponível a receber as criações textuais imaginativas dos pequenos.
Eu Já Sei: faz parte do objetivo de desenvolver a autonomia dos alunos, partindo do processo de auto-avaliação. A criança então escreve seu nome numa lista, informando que já considera que aprendeu e está pronta para ser avaliada por um professor. Só então esta avaliação se processa.
Eu Preciso de Ajuda: a criança é estimulada a buscar todas as fontes possíveis de informação que estão a seu alcance antes de pedir ajuda. Esgotando suas possibilidades, o aluno pode escrever seu nome numa das listas dispostas em diversos locais da escola. Posteriormente, um professor organiza pequenos grupos de estudo para esclarecer o assunto com quem tem dúvidas.
Professor Tutor: o professor tutor acompanha de perto um grupo de 8 a 11 alunos, os quais monitora o trabalho individualmente e faz reuniões sistemáticas duas vezes por semana, mantendo também um contato estreito com os encarregados de educação.
Grupos de responsabilidade: Cada aluno e a maioria dos orientadores educativos são responsáveis por algum aspecto do funcionamento da escola. Os grupos reúnem-se quinzenalmente para tomada de decisão.
Algumas das responsabilidades atribuídas aos grupos são:
Assembleia e Comissão de Ajuda;
Terrário Jardim;
Clube dos Limpinhos;
Refeitório;
Arrumação e Material Comum;
Clube do Silêncio e Ajuda dos Direitos e Deveres;
Biblioteca;
Jornal;
Jogos e Vídeo;
Computadores e Música;
Desporto Escolar;
Recreio Bom;
Murais;
Mapas de Presença e Datas de Aniversário;
Correio da Ponte;
Cabides e Guarda Chuvas;
Bibliografia sobre a Escola da Ponte:
ALVES, R. et al. A escola com que sempre sonhei, Ed. ASA, Porto, 2000.
ALVES, R. Estórias maravilhosas de quem gosta de ensinar, Ed. ASA, Porto, 2002.
ARAÚJO, D. Encontro Entre Margens, FPCE-UP, Porto, 1999.
CANÁRIO, R. Escola da Ponte, Profedições, Porto, 2004.
COCHITO, I. Representações e práticas de autonomia e cooperação, UC, Lisboa , 1999.
I.I.E./M.E. Educar Inovando, Inovar Educando, Lisboa, 1990 (pp.81-82), 1990.
PACHECO, J. Contributos para a compreensão dos círculos de estudo, FPCE, Porto, 1995.
___________. Quando eu for grande quero ir à Primavera, EDS/Suplegraf, S. Paulo, 2003.
___________.Sozinhos na Escola, Ed. EDS/ Suplegraf, S. Paulo, 2003.
___________. Para a Alice, com amor, Cortez Editora, S. Paulo, 2004.
___________ . Para os filhos dos filhos dos nossos filhos, Papirus, S. Paulo, 2005.
___________ . Caminhos para a Inclusão, Artmed, Porto Alegre, 2006.
___________ . Escola da Ponte – formação e transformação, Vozes, Petrópolis, 2008.
___________. e TRINDADE, R. As Escolas como Espaços de Formação Pessoal e Social, PE, Porto, 1998.