Colaborador do Instituto Inclusão Brasil
Especialista em Música e em Leitura e Escrita, é mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Foi diretor da Escola da Ponte,Vila das Aves, Portugal
"A infância tem valor, näo tanto como período de adestramento, mas como período em que se pode experimentar livremente aquela maravilhosa sensaçäo de sermos nós próprios, que predispöe a aceitar melhor as inevitáveis limitaçöes da vida adulta" (Biasutti, B., 1973). Mas de que modo a Escola opera a superaçäo do egocentrismo? A escola introduz um elemento novo no psiquismo infantil: o do êxito intelectual. Faz rodear a criança de uma atmosfera de pressäo organizada a que, antes, näo fora submetida. Leva a efeito uma contínua selecçäo entre os alunos."O processo de aprendizagem desenvolve-se numa atmosfera que exaspera as dinâmicas emotivo--afectivas e fomenta um conformismo de superfície que mascara o mais aceso individualismo (...) é de facto necessário repará-la a tempo para a sua futura inserçäo disciplinada no trabalho e na sociedade" (Biasutti).
A espontaneidade cede aos raciocínios abstractos. A imaginaçäo e a fantasia apagam-se sob o peso de exercícios impostos. O professor, quando receia perda de controlo, cria desconfianças relativamente a comportamentos infantis, no seu critério, näo-aceites socialmente. A realidade da criança é substituída pela realidade do adulto que nela se projecta. Até mesmo quando a escola se reivindica de uma or-ganizaçäo de trabalho centrada no aluno, essa situaçäo se verifica, ou mesmo se agrava. A gestäo "centrada no aluno" liberta o professor para posiçöes de observaçäo. Nestas, ele exerce um controlo individual e permanente, que seria inviável em ensino directivo, no qual o professor interage com todos os alunos, a todo o instante. Essa posiçäo de livre observador confere ao professor o privilégio de uma intervençäo permanente e imediata, enquanto gera no aluno uma autonomia censurada.
A autonomia em pedagogia negativa pode ser, como acabo de expôr, uma perversäo de autonomia. Quando procede à crítica de Rosseau, Schérer refere que "o fulcro continua a ser (...) mais do que nunca, o educador (...) seguro de si, tanto mais omnipresente quanto näo pode pôr-se à margem, estendendo a todos os actos da vida do seu aluno o seu direito de controlo e de olhar" (Schérer, R., 1982: 83).
Ao nível das regras, a intervençäo do educador é permanente. Em nome da sua própria protecçäo, a criança vê-se submetida a um controlo generalizado. Porém, "na infância, näo é só o outro mas o próprio quem está implicado, e o olhar inqui-sidor lançado sobre a criança é também, e em primeiro lugar, o impossível olhar lançado sobre si" (Schérer). O professor, ainda que se reclame de uma posiçäo demissionária, estará sempre presente a administrar o poder e a regular os afectos. "O adulto näo quer a criança outra, mas procura-se nela; näo quer tê-la como interlocutor, julga-a apenas moldável; espera dela, sobretudo a sua auto-afirma-çäo. Se fosse caso de se fazer de novo, ele recomeçar-se-ia certamente na infância, mas näo sendo possível, escolhe perpetuar-se nela; por isso está atento a que o fortaleça nas suas certezas e näo o desiluda" (Schérer). Este autor alude ainda de um "desvio da infância" que força o desejo infantil a dirigir-se para "os simulacros que lhe säo propostos".





