terça-feira, 8 de novembro de 2011

VEJAMOS O QUE NOS DIZ CROZIER SOBRE MUDANÇA...

 Prof. José Pacheco
«(...) é que para mudar alguma coisa é preciso esperar que a cultura mude. O que conduz tanto ao conservadorismo como a tentativas absurdas de mudar a cultura ou a vida.
De facto, a experiência mostra que as rupturas podem dar resultados fora de mudanças de cultura. A cultura prossegue. Fabrica-se a partir daquilo que os homens vivem, e mudanças na sua vivência podem ser essenciais.» (70)
«(...) trata-se da aprendizagem colectiva e se existe uma relação estreita com a aprendizagem individual, uma e outra não são a mesma coisa» (70)
«(...) a maior parte das mudanças sociais acontecem sem que sejamos verdadeiramente responsáveis pelo que acontece, mas para as compreender é interessante passar pelo artificial» (71)
« Uma mudança não pode desenvolver-se e fixar-se senão na medida em que as relações humanas se transformem. Mas as relações humanas não se transformam porque existe uma condição material que muda.(...) Mudam na medida em que os homens são capazes de se organizar num jogo de relações diferente daquele em que operavam antes. E existe por trás disto o desenvolvimento de uma capacidade colectiva.» (71)


«As capacidades colectivas, com efeito, são fruto de um desenvolvimento anterior, são um produto social, um produto dos homens e qualquer coisa que não é simples, que não é dada, e foi necessário muito tempo para lá chegar. Temos pois este paradoxo: o produto social é um obstáculo para a aprendizagem, porque é preciso reordenar o sistema, mas ao mesmo tempo é um ponto de partida porque não poderá fazer qualquer coisa de novo sem se tirar partido do que se fez anteriormente.» (71/2)
«Existem pessoas que têm interesse em que as coisas mudem. Mas, se numa dada perspectiva isso é verdade, esse não é o problema fundamental da mudança (...) do desenvolvimento de um novo jogo com novas capacidades dos homens. De facto, surgem com bastante frequência, pessoas que tinham a beneficiar com a mudança e acabam finalmente por se oporem, porque não têm capacidade de tirar partido do novo jogo» (72)
« (...) as mudanças dirigidas aparecem frequentemente como fracassos (...) porque o esforço não é feito sobre os pontos sensíveis do sistema, com vista à reconstrução de qualquer coisa de mais aberto, de mais justo, de mais eficaz.» (73)
«As tentativas de mudança são elaboradas sem uma visão penetrante, realista e prática. Vai-se reconstruir o conjunto a partir de princípios que deveriam ser postos em prática e não a partir de um conhecimento da prática das relações humanas em causa. Analisam-se de forma exaustiva aspectos materiais (...)»(73)
«Temos então um sistema que se desenvolve, posto em execução a partir de uma visão teórica, visão que apenas recebe da prática uma contribuição muito indirecta, isto é, uma contribuição confusa e de qualidade inferior» (74)
«E, se existe poder, procura-se perseguir os executantes para que obedeçam aos princípios e torna-se obrigação persegui-los, porque os princípios são de tal modo claros, de tal modo evidentes na sua coerência, que quem não os aplicar está em falta – representa o mal.» (74)
«(...) para acertar, é preciso então efectuar as transformações que ajudem a tornarem-se diferentes, a terem melhores relações e, eventualmente, se necessário, a serem mais eficazes» (73/4).
«O objectivo é agir com o sistema e não contra o sistema. Para agir com o sistema é preciso em primeiro lugar compreendê-lo. Ora, o que acontece em todos ou quase todos os casos, é que se conhece mal aquilo sobre que se vai agir (...) não se conhece o sistema humano» (75)
«Numa pequena organização, se o dirigente é extremamente intuitivo, consegue manter-se, mas quando a organização se torna importante, não sobrevive.» (76)
«Não se consegue avançar senão através de uma acção paciente, de muito tempo e esforço. Os responsáveis são capazes de aceitar outras ideias, o que é fundamental para o futuro, mas é preciso dar-lhes tempo e liberdade. Deve-se fazer um investimento. Naturalmente, é necessário que este investimento seja apoiado por pessoas que o compreendam» (76)
«(...) o que traz o conhecimento é a descoberta das regulações essenciais de um sistema e quando se conhecem estas regulações apercebemo-nos de que mudanças relativamente fracas, que custam relativamente pouco, podem ter consequências muito importantes, enquanto que mudanças espectaculares não têm nenhuma importância (...) o custo da mudança poderá ser muito mais pequeno do que se pensa, se esta for bem dirigida. Pelo contrário a mudança mal dirigida custa de tal modo caro que ninguém a pode pagar. Quando se pretende impor qualquer coisa contra o sistema humano, nunca mais se acaba pois os homens têm uma capacidade de imaginação prática inacreditável; como consequência vai ser necessário destruir progressivamente as suas pequenas estratégias defensivas, desenvolver a regulamentação cada vez mais, o que dá resultados cada vez mais caros (...)» (76/7)
«Temos necessidade de reflectir mais profundamente na relação entre os iniciadores da mudança e os participantes na mudança, que é uma relação indispensável, que é uma relação de negociação e, em geral, de negociação implícita. A negociação é indispensável, porque nunca se acertará suficientemente; os homens vão transformar a possibilidade de mudança pretendida em função dos seus próprios problemas e existirá pois desvio.» (77/8)
«(...) as motivações são muito menos importantes do que a realidade e o comportamento e, se e pretende agir, é desenvolvendo a capacidade dos homens que se obterá êxito, muito mais do que mudando as motivações (...) as pessoas podem aceitar mais facilmente que as ajudem a desenvolver as suas capacidades individuais» (78)
«(...) fizeram um bom diagnóstico sobre o sistema, e por outro fizeram uma boa aposta, uma espécie de diagnóstico intuitivo sobre a sua própria margem de liberdade como actores. Não basta ter uma boa ideia, é preciso saber o que se pode fazer, quais são os seus próprios limites.» (79)
«(...) consiste em efectuar mudanças em função das consequências que se verificaram ou que se prevêem. A tentativa de negociação de que falei atrás é também de todo essencial» (80)
«(...) para podermos subsistir no mundo que conhecemos, é preciso transformar as nossas práticas económicas e, a partir daí, as nossas práticas sociais. (...) É pois necessário reflectir, é necessário investir nas capacidades a mudar, nas capacidades colectivas (...)
O importante para nós é o método, o desenvolvimento das capacidades, mais do que a substância. Apesar das aparências, a substância importa muito menos do que a capacidade de mudar, o que vai permitir aos homens serem mais livres para decidirem, eles próprios, da substância da mudança» (81)
Meier, M. (1981). «Mudança individual e mudança colectiva» in Barroso, A. F., Matos Silva, B., Vala, J., Monteiro, M.B. e Catarro, M.H. (org.). Mudança Social e Psicologia Social. Lisboa: Livros Horizonte)

UMA SUGESTÃO: QUE SE ESTUDE AS TEORIAS A PAR DO ESTUDO DAS BIOGRAFIAS DOS TEÓRICOS

 
Prof. José Pacheco

Por exemplo: uma breve exposição, para a contextualização sócio-histórica da produção do discurso da não-directividade

Carl Rogers nasceu em 1902 e começou por realizar algumas experiências na agricultura. Depois, a sua curiosidade levou-o ao estudo da História. Com 22 anos, decidiu tornar-se sacerdote. No colégio onde se inscreve, toma contacto com a obra de Dewey. Dois anos, depois abandona o seminário e acaba por se formar em psicologia na Escola Normal da Universidade de Columbia. Aí, descobre a obra de S. Freud. Aos 38 anos, é titular da cadeira de psicologia clínica na Universidade de Ohio, saltando todos os escalões intermédios de promoção académica. Agora, continuai...

Rogers surge na esteira das pedagogias libertárias que conheceram um forte incremento no século XIX e que, particularmente, subscrevo e assumo! Antes de surgir no campo pedagógico, a ideia da revalorização do indivíduo é desenvolvida entre filósofos, sobretudo no decurso do século XIX, (relevar que, neste período, Rosseau foi praticamente ignorado como pedagogo) por exemplo, por Schopenhauer e Nietzshe ("Sê tu próprio"), e por escritores, nomeadamente Dostoiewski (v. "O Idiota" e "Os Irmãos Karamazov"). Na senda destes autores, consideremos também André Gide, na sua oposição violenta à sociedade, à religião e à moral.

Entre os pedagogos libertários consideremos dois extremos, na sua radicalidade: Ellen Key, que postulava a ausência de toda a intenção educativa (professora primária sueca: "deixar tranquilamente e sem inquietação a Natureza fazer sozinha a sua obra, velando apenas por que as condições do ambiente sustentem o seu trabalho (...) o grande segredo da educação é não educar" O Século da Criança, 1900); Anton Makarenko, que considerava a liberdade como virtude educativa, mas que lhe juntava a disciplina e o esforço pessoal como exigências indispensáveis ao acto educativo (referir a guerra civil, os filhos dos russos brancos e o episódio da tareia, no Poema Pedagógico).

Ainda no século XIX, Tolstoi, viu a sua escola de Iasnaia Poliana (na qual pretendia formar homens para lutar contra a miséria popular) ser encerrada pela polícia do czar. Já no século XX, Ludwig Curlitt ("Um só mestre: nós próprios") e as "Experiências de Hamburgo", entre 1919 e 1936 (ao cabo de algum tempo, as crianças procuravam a intervenção dos professores, na busca de ordem e de "respostas" a motivações. A política hitleriana fez calar esta tentativa de educação emancipadora.

De entre os autores citados, apenas Rogers não foi um pedagogo com uma prática assumida na Educação.

E, na História da Educação, não há registo de que qualquer inovador fosse, antes, professor. Os contributos teóricos, que vêm servindo de referência para o desenvolvimento de projectos educativos são criação de médicos (Decroly, Montessori), de biólogos (Piaget), de teólogos (Ivan Illich), de escritores (Tolstoi), de psicólogos (Vigotsky, Rogers), de filósofos ou de sociólogos (Dewey, Ferrer, Krishnamurti, Steiner), a lista é bem longa...

Cada um desses “inovadores” perspectivou a mudança das práticas escolares a partir do seu olhar disciplinar. Talvez por essa razão, as escolas “adaptoptem” o Rogers psicólogo, isolando-o de propostas de outro domínio (sócio-moral, emocional...).

A não-directividade, que algumas escolas arriscaram “clonar” a partir da obra de Rogers, redundou em insucessos e infelicidade. É o que eu chamo de não-directividade ingénua, objecto de análise, por exemplo, de Georges Snyders.

Não se poderá prescindir dos contributos de Carl Rogers. Mas a tarefa central dos professores envolvidos em (verdadeiros) projectos de mudança será o de conferir contemporaneidade a Rogers.

Perdoai o tom “normativo” da minha intervenção, mas creio que se tem andado a sacralizar as inovações e os inovadores, não lhes reconhecendo uma característica: a de que toda a inovação tem carácter particular (passe a redundância...). Muitos projectos falham porque adoptam uma só “doutrina”, um só “inspirador” (há os montessorianos, os freinetianos, os steinerianos, os ferrerianos...).

Quando não se tem uma visão total, integradora, fossiliza-se teorias e teóricos, ao se insistir na utilização de propostas velhas de séculos. Como se o que Dewey propôs (há cem anos) fizesse sentido hoje. Como se os estádios que Piaget propôs (há meio século!) fosse algo inquestionável... Não cuidando de integrar (e actualizar!) diferentes propostas num todo coerente, no exercício de uma reelaboração teórica contextualizada nos desafios do hi et nunc do drama educativo (que é sempre diferente de escola para escola), vi muitos professores assumirem práticas polarizadas: ora centradas no professor, ora no aluno.

A prática da Ponte sugere que se faça uma abordagem “holística”, um re-ligare essencial, que permita o recurso a diferentes contributos teóricos sem risco de incorrer em fundamentalismos pedagógicos. A “não-directividade” a “centração da aprendizagem no aluno”, não podem ser vistas como panaceias psicologizantes. Deverão, por exemplo, harmonizar-se com perspectivas sociológicas, com o domínio afectivo (estabelecimento de vínculos), com o domínio sócio-moral (a autonomia exercida na relação com o outro e valores), com o domínio estético...

Tudo se vive e aprende na relação. A aprendizagem faz-se na relação (professor-aluno, aluno-aluno, professor-professor, professor-família, aluno-internet, professor-internet...). Sem querer cair na tentação de pretender instituir uma nova corrente teórica, diria que, na Ponte, a aprendizagem está centrada na relação...

(José Pacheco, Fev.87)

CIDADANIA



Prof. José Pacheco
A educação continua ainda a ser justificada mais como meio de controlo social e muito raramente como instrumento de aperfeiçoamento pessoal. A maioria das escolas continua centrada em tarefas que têm uma base de informação igual para todos, o mesmo tipo de meios e técnicas para todos, provas individuais de adaptação ao padrão exigido para o aluno médio. O conceito de "classe" está associado a uma suposta homogeneidade organizada em sucessivas etapas. A insistência na constituição de classes e de turmas pretensamente homogéneas toma por referência o argumento de que é possível agrupar indivíduos com um  nível intelectual uniforme. Porém, o processo de auto-construção do conhecimento é inconciliável com a ideia de classe homogénea. Regra geral, a criança é incluída num grupo de alunos a quem o professor ensina como um todo, no mesmo tempo, fazendo-se ouvir no mesmo código, exigindo o atingir dos mesmos objectivos... por todos. Mas obrigar cada um a ser igual  a todos é negar-lhe a possibilidade de existir como pessoa livre e consciente.
A inadaptação gerada na escola não é exclusiva do aluno. Ela é, sobretudo, uma inadaptação das escolas. Não há apenas "dificuldades de aprendizagem"; há, sobretudo, inconfessáveis "dificuldades de ensino". Tudo o que é meramente transmitido/ensinado tem pouca influência no comportamento da pessoa. Os conhecimentos que podem influenciar os conhecimentos do indivíduo são os que ele próprio descobre e de que se apropria.
O acto intencional caracteriza a existência digna, sempre que um aluno se faz participante de um projecto colectivo. A cidadania é uma "técnica de vida" a aprender como outras. Neste contexto, a participação deve ser encarada como um processo quotidiano e instrumento de envolvimento e de co-responsabilização de todos quantos, directa ou indirectamente, se relacionam com a educação. É através da participação que podem ser criadas condições facilitadoras de uma vivência democrática por parte dos vários actores sociais na definição e desenvolvimento do projecto educativo.

BIBLIOGRAFIA SOBRE A ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DA ESCOLA DA PONTE




A Formação Social da Mente, Lev Vygotsky, Martins Fontes, tel. (011) 239- 3677
Pensamento e Linguagem, Lev Vygotsky, Martins Fontes, tel. (011) 239- 3677
Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem, Yygotsky, Luria e Leontiev, Ícone Editora e Editora da USP, tel. (011) 813-8837
A Linguagem e o Outro no Espaço Escolar - Vygotsky e a Construção do Conhecimento, Ana Smolka e Mari Cecilia Goes, Papirus, tel. (019) 231 3500
O Pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil, Maria Teresa de Assunção Freitas, Papirus, Psicologia na Educação, Claudia Davis e Zilma Oliveira, Cortez, tel. (011) 864-0111
Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento - Um Processo Sócio-Histórico, Marta Kohl de Oliveira, Scipione, tel. (011) 239-1700
Vygotsky e a Educação, Luis Moll, Artes Médicas, tel. (051) 330-344
Vygotsky - Uma Perspectiva Histórico-Cultural da Educação, Teresa Cristina Rego, Vozes,
Vygotsky - Uma Síntese, Renê Van Der Veer e Jaan Vaisiner, Loyola, tel. (011) 6914-1922
Abramowicz, Meire. Avaliando a avaliação da aprendizagem –
ABT: Estudos e pesquisas nº 4, Rio de Janeiro, 1990
AFONSO, Almerindo Janela – Políticas Educativas e Avaliação Educacional - para uma análise sociológica da reforma educativa em Portugal – 1999.
AFONSO, Almerindo Janela, Avaliação educacional: Regulação e emancipação – Para uma sociologias da políticas avaliativas contemporâneas.2 edição, São Paulo - Ed. Cortez, 2000.
Agenda Educativa. Porto Alegre, Artmed, 2001.
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Allal, L., Cardinet, J. & Perrenoud, P. (Ed.) (1979).  L'évaluation formative dans un enseignement différencié .  Bern:  Lang  (1988-5e édition).
ALMEIDA, Fernando José et al. Educação a Distância: Formação de Professores
Alternativa, Campinas, Papirus, 1994.
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ALVES , Rubem, Entre a Ciência e a Sapiência: o Dilema da Educação - Editora Loyola,  2005.
ALVES, Lynn; NOVA, Cristiane. Educação a Distância: Uma Nova Concepção de
ALVES, Maria, Currículo e Avaliação Uma perspectiva integrada – Porto editora, 2004.
ANIJOVICH, Rebeca, Malbergier, Marta, Sigal, Celia – Uma introducción a la enseñanza para la diversidad – Fondo de Cultura Económica, 2004.
ANTONIO Chizzotti, Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais – Cortez Editora.
ANTUNES, Celso. Vygotsky, quem diria?! Em minha sala de aula: fascículo 12. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992.
BALLESTER, Margarita – Avaliação como apoio à aprendizagem
BAQUERO, Ricardo. Vygotsky e aprendizagem escolar. Tradução: Ernani F. da Fonseca Rosa. Porto Alegre: Arte Médicas, 1998.
BARTHES, R. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, [s.d.].
CORTESÂO, Luiza; LEITE, Carlinda e PACHECO; José (2003). Trabalhar por projecto em educação. Porto: Porto Editora, 95 pp.
CURY, Carlos Roberto Jamil. Educação e contradição; elementos metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo. 4ª. ed.,  São Paulo: Cortez, l989.
DEMO, Pedro. Questões para a Teleducação, Petrópolis: Vozes, 1998.
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DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender a aprender”: críticas às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. 2ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.
ECO, Umberto – Como se Faz uma Tese - Editora perspectiva, 2002
FERREIRO, E. & TEBEROSKY, A. Psicogênese da Língua Escrita. Porto
FERREIRO, E. A Escrita Antes das Letras. In: SINCLAIR, H. (org.). Folha de São Paulo
FREIRE, Paulo, Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa – Editora Paz e Terra – 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessáris à pratica Educativa. São paulo: Ed. Paz e terra.1997
GARCIA, Regina Leite. (org.) Revisitando a pré-escola. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2001.
GARDNER, Howard – Inteligências multiplas: a teoria na prática
GARDNER, Howard. A criança e o pré-escolar- Como pensa e como a Escola pode ensinaá-la. Porto alegra: artes Médicas,1995
GASPARIN, João Luiz. Uma didática para a pedagogia histórico-crítica. Campinas, SP: Autores Associados, 2002.
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GERMAN, C. et ali. Informação & Democracia. Rio de Janeiro: EDUERJ,
GOMES, Cândido alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas – 4 ed.rev. e ampl. – São Paulo – EPU – Temas Básico de educação e ensino.
GROSSI, E. P. & BORDIN, J. (org.) Paixão de Aprender. Petrópolis: Vozes, 1992.
Hadji, Charles. Avaliação desmistificadora, Porto alegre: Ed. Artmed.
HARASIM, Linda. On-line Education: a new domain. Midwave, 1989.

TEORIAS DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO



Prof. José Pacheco

Nem a psicologia objetiva, representada pelo Behaviorismo de Skinner, com suas tentativas de reduzir a atividade consciente a esquemas simplistas baseados nos reflexos; nem a psicologia subjetiva, que estuda as funções humanas complexas de modo puramente descritivo e fenomenológico, como a Gestalt de Koffka; nem a Psicologia Construtivista de Piaget, entendendo o ser humano como abstrato e construindo-se  a partir da maturação, representam um modelo satisfatório da psicologia humana (Vygotsky, 1991).
O entendimento de que o desenvolvimento humano independe da aprendizagem desconsidera as determinações históricas, não se constituindo, ainda, a compreensão da totalidade do ser humano (Vygotsky, 1991). A crítica também se estende à psicologia  construtivista de Piaget que, embora considere a interação entre o biológico e o social, prioriza a maturação, entendendo que a aprendizagem deve aguardar pelo desenvolvimento real, compreendendo o sujeito como abstrato e universal, inserido em uma sociedade estruturada harmonicamente.
Vygotsky propõe que o ser humano seja estudado na  sua unidade e na sua totalidade, considerado como um ser multideterminado: integra, numa mesma perspectiva, o homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e ser social, enquanto membro da espécie humana e participante de um processo histórico (Oliveira, 1997, p. 23).
É no espaço escolar que a criança deve se apropriar ativamente dos conhecimentos acumulados e sistematizados historicamente pela humanidade, formulando conceitos científicos. A escola tem um  papel insubstituível nessa apropriação, pois, enquanto  agência formadora da maioria da população, deve ter intencionalidade e compromisso explícito de tornar acessível a todos os alunos o conhecimento. Mas a escola não tem cumprido seu papel.
O professor é o principal mediador, devendo estar atento, de modo a que todos os alunos se apropriem do conhecimento e alcancem funções superiores da consciência, pois é a aprendizagem que vai determinar o desenvolvimento.
Os alunos têm diferentes níveis de desenvolvimento, tanto real quanto potencial. O professor, em situações de interacções significativas, deve possibilitar que cada um seja agente de aprendizagem do outro.
Num momento, o aluno aprende: em outro, ele ensina.
O desenvolvimento não é linear; é dinâmico e sofre modificações qualitativas.

ENTREVISTA COM MARCOS MEIER



Marcos Meier, Mestre em Educação, Psicólogo e Matemático
Enviado por Prof. José Pacheco

Qual é a contribuição da pesquisa para as teorias da educação?
Existe uma teoria israelense conhecida no Brasil como teoria da mediação. Ela resgata o valor do professor como aquele que ajuda o aluno a aprender. Dentro desta teoria o professor é visto como um mediador. Ele provoca o aluno, coloca sal na boca dos estudantes para que eles fiquem com sede de conhecimento. A partir dessa teoria, a professora Sandra Garcia (também autora do livro) fez uma dissertação de mestrado comparando Feuerstein, que é o autor desta teoria da mediação, com Vygotsky, que é um dos grandes educadores do mundo. Nessa comparação ela resgata o conceito de mediação desde o início, de Platão e Aristóteles. Meu trabalho, também de mestrado, foi realizar a pesquisa com os alunos, com o objetivo de saber quais são as principais características de um excelente professor. Depois, comparamos as características percebidas pelos alunos com as que Feuerstein coloca na teoria dele. Basicamente as respostas coincidem com o que já existe na teoria de Feuerstein, no entanto tem uma diferença fundamental: a teoria não prevê o vínculo entre o aluno e o professor, o que de fato precisa existir para que esta relação seja a de um amigo como aquele descrito pelos alunos.

E a partir de agora o “vínculo” será incorporado na teoria da mediação?
Nós propusemos ao Feuerstein que ele colocasse na teoria dele a importância da construção do vínculo entre professor e aluno. Porque quando vemos o professor entrar na sala de aula, como uma autoridade máxima para dar a aula e ir embora, isso não é criar vínculo. Ele não fica no recreio batendo papo, brincando junto, indo nos acampamentos com os alunos. Nós percebemos que isso é fundamental que aconteça para que o professor também seja um amigo. Então, fizemos esta proposta, mandamos para Israel e a grande surpresa foi que o Feuerstein aprovou isso, nos mandou uma carta elogiando nosso trabalho e dizendo que esta proposta vai ser integrada à teoria.

Não havia nenhuma teoria de educação que havia proposto o vínculo. Isso é inédito?
Algumas outras contribuições já têm sido mostradas. Até mesmo Paulo Freire, aqui no Brasil, fala da importância do professor descer do pedestal. Mas as propostas que já existiam nunca tomaram corpo em uma teoria da educação.
O que fazer para que este vínculo não extrapole a relação entre professor e aluno?
Primeiro depende do exercício da autoridade. Nós fazemos mediação de modo com que o aluno acredite na sua competência. Quando o aluno se sente competente porque este professor acredita nele, ele passa a respeitar o professor. Outra coisa importante é a mediação do desafio. O professor desafia o aluno a aprender mais. Os professores, neste vínculo, também devem compartilhar suas dificuldades escolares. Quando saímos do pedestal, a gente fica mais próximo e real para este aluno.

Quantas escolas já trabalham com a teoria da mediação?
Em Curitiba nós temos apenas dois colégios, o Martinus (do qual ele é diretor) e Marista Santa Maria. No Rio Grande do Sul existem várias escolas, porque foi lá que aconteceu a primeira tese de doutorado sobre Feuerstein.

Qual a diferença entre a teoria construtivista e a de mediação?
A construtivista trabalha com uma liberdade muito grande, daí ela entrou em descrédito. Muitas famílias achavam que as crianças tinham liberdade demais e não estavam levando a sério os estudos. Então a teoria da mediação vem dentro da proposta do construtivismo e do interacionismo e mostra como o professor pode ajudar o aluno a construir este conhecimento.

A DANÇA-EDUCAÇÃO COMO MEDIAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA: L. Vygotsky e H. Gardner


 
Claudia Terezinha Quadros (UFSM)
Ruy Jornada Krebs (UFSM)
Adriana Moreira da Rocha Maciel (UFSM)
Silvia Maria de Aguiar Isaia (UFSM)

Este estudo é parte integrante de análises exploratórias para minha dissertação de mestrado, cuja temática versa sobre a dança-educação como mediação ao desenvolvimento da criança. Parte da necessidade de refletirmos sobre o ensino da dança para além das visões restritas da dança como expressão artística. Não estamos propondo descartar o aspecto artístico da mesma, pois este é inerente à própria natureza do trabalho. Desejamos ampliar este debate, pois o que vimos percebendo ao longo de
defeito no arquivo. aguardando envio de novos dados pelo autor
Através da dança, podem ser trabalhadas as perpectivas espaço- temporais, em habilidades específicas que facultam às crianças a transição de experiências corporais para estimular a cognição e afetividade. Durante toda a vida do indivíduo, a percepção corporal irá influenciar a visão que tem de si próprio, construída através das suas experiências motoras (NANNI,1995).
Desde modo, compreendo a função mediadora da dança-educação no desenvolvimento da criança, buscando as contribuições da Teoria Sócio- Histórica, de Lev S. Vygostsky e da Teoria Simbólico-Cultural, de Howard Gardner. Partirei da concepção de dança -educação e suas tendências no contexto educacional, refletindo sobre sua função mediadora à luz dos referenciais teóricos, buscando os entrelaçamentos entre os autores. A dança é conceituada por inúmeros autores em infinitas palavras, mas sendo difícil abordá-la em sua totalidade, utilizando como meio, apenas a palavra falada ou escrita, uma vez que a dança é movimento. Considerada pela grande maioria como a arte de movimentos, ROBATTO (1994) possui, talvez, uma das mais objetivas definições para o termo dança "a linguagem do indivisível". De imediato, poderíamos colocar que a proposta de dança-educação não propicia um ensino tecnicista, baseado na imitação sistematizada de movimentos, visando unicamente a reprodução dos mesmos, centrada na obsessão pelo vigor técnico, como acontece no balé clássico. Sob uma falsa égide progressista, acredita-se que as atividades escolares organizadas a fim de reproduzir algo já existente são responsáveis por adestramento e comportamentos estagnados (BRACHT et alli, 1992). Em contrapartida, estamos propondo uma reflexão acerca dessa realidade, tratando de uma nova abordagem à atividade de dançar, explicitada a partir da corrente sócio-histórica vygotskiana. A linha sócio-histórica de Vygotsky desenvolve a idéia de que o processo artístico na dança está intimamente relacionado com a atividade humana, inter e intrapessoal, criadora de algo novo, seja de origem concreta ou abstrata. Compreendemos a partir dessas colocações que o trabalho de dança escolar, organizado com bases em estratégias pedagógicas coerentes e respeitando os aspectos psicossociais, estimulam o desenvolvimento da criança.
Para que a dança propicie o desenvolvimento da criança, permitindo um primeiro contato a nível de conhecimento de si mesmo e do mundo, é necessário que o trabalho de dança-educação esteja voltado para a compreensão do processo de desenvolvimento e do processo de aprendizagem cognitiva infantil. Pois é indispensável que o ensino desta atividade seja estruturada e que busque a superação dos níveis de conhecimento já adquiridos pela criança. Salientamos que a criança, quando dança, também participa de ações pessoais (inseridas no coletivo) que são características do princípio da atividade humana. VYGOTSKY (1982) chama atenção para dois tipos de impulsos que subsidiam o desenvolvimento artístico-criador e embasam o processo de aquisição de conhecimentos psicossociais do ser humano. Na visão de VYGOTSKY (1982), o primeiro impulso está vinculado à reprodução de alguma coisa, relacionando-se à capacidade humana de memorizar. No caso da dança, a criança é capaz de lembrar ativamente, reproduzindo movimentos, seqüências, ritmos, temas, constituindo assim um desempenho pessoal cotidiano. Segundo VYGOTSKY (1989:57), "para a criança, pensar significa lembrar". Por meio dessa atividade reprodutora, especialmente em relação à dança, a criança, quando bem trabalhada, estará reproduzindo e internalizando conhecimentos que alicerçarão sua percepção do mundo da dança e do mundo sócio-histórico; isso lhe subsidiará e impulsionará a atividade criadora posterior. O segundo impulso da atividade humana é a criação, também chamada por Vygotsky de função combinatória. Esta está associada ao fato de que o cérebro não somente reproduz, mas a partir desta possibilidade pode reelaborar vivências, através do trabalho, criando algo novo. Nesse enfoque, a atividade de dança-educação que desejamos propor poderá contribuir para o desenvolvimento sócio cognitivo da criança escolar, ou seja, essa atividade pode ser compreendida como Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Segundo KREBS et alli (1995), entender o ensino também como ZDP, compreende auxiliares externos (modos de ensinar) que fazem mediação entre alunos e conhecimentos elaborados pela cultura humana, mostrando a relevância do conceito de Vygotsky de ZDP está em compreender uma perspectiva circular: desenvolvimento, aprendizagem e ensino.
Outro aspecto importante a destacar é a questão das relações sociais características da constituição da dança, bem como o papel sócio- histórico que cada criança possui no grupo. Assim cada criança tem uma história sócio-cultural pessoal que, ligada a seu processo de aprendizagem no ato de dançar, determinará o seu nível de desenvolvimento psicossocial. VYGOTSKY (1989),coloca que a natureza social da atividade artística é importante nesse processo de criação, visto que vários mundos se interrelacionam para dar fluência à construção do trabalho. Pois, para o autor o amadurecimento também decorre das situações interativas, caracterizando a atividade de dançar, quer se dêem em simples movimentos ou em coreografias complexas. O ato de dançar é um momento de aprendizado, para que as emoções sejam liberadas, revertendo-se em auto-conhecimento, propiciando a criança o desenvolvimento de muitas funções superiores.
Considerando ainda o posicionamento de Gardner, sobre a Teoria das Inteligências Múltiplas, direcionarei as reflexões sobre a dança, com relação ao que o autor denominou de inteligência corporal-cinestésica. Partindo dessa compreensão, a inteligência corporal-cinestésica baseia-se em objetos a ser em considerados, uma forma que permanece até mesmo mais próxima do indivíduo no que tange ao uso do corpo e ações da pessoa sobre o mundo. Segundo GARDNER (1995), a inteligência corporal-cinestésica é a capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos utilizando o corpo inteiro, ou partes do corpo, sendo que dançarinos, atletas e artistas apresentam esta em alto desenvolvimento. A característica dessa inteligência é a capacidade de usar o próprio corpo de maneiras altamente diferenciadas e hábeis para propósitos expressivos. Refere-se à capacidade de trabalhar com objetos, tanto os que envolvem movimentos motores finos, até movimentos motores grosseiros. GARDNER (1994) coloca que, de todos os usos do corpo, nenhum atingiu ápices maiores, ou foi mais variavelmente desenvolvido pelas culturas do que a dança. Para Hanna (apud GARDNER, 1994), podemos definir a dança como sequências culturalmente padronizadas de movimentos corporais não verbais que são propositais, intencionalmente rítmicos e apresentam valor estético aos olhos daqueles para quem o dançarino está se apresentando. Em muitas culturas, a dança pode servir a diversas funções. As possibilidades de movimentos são ilimitadas, pois a dança serve como um momento em que os valores da cultura são expressos.Segundo SAMPLES (1990), até pouco tempo atrás, em nossa cultura, o corpo representava a antítese da mente. Durante muito tempo aprendemos que nossos corpos são veículos para excessos sensoriais. Muitos educadores exploram o saber científico e reconhecem as diferenças entre a dança, forma clássica, e o movimento incluído como sabedoria própria do corpo, consciência deste corpo. O cinestésico vai além das formas padronizadas e racionalmente aceitas dos movimentos corporais. A dança e os esportes são as duas opções mais aceitas de expressão cinestésica, pois ambas enfatizam o desempenho de padrões estabelecidos de movimentos, geralmente não permitindo inovações. Em contraponto, as crianças têm necessidade de experimentar improvisações e conformidade no campo cinestésico e precisam sentir seu próprio equilíbrio mente-corpo nas mais variadas situações da vida. Felizmente a dança-educação está surgindo como tendência que tem por objetivo propiciar as crianças vivências motoras, ou seja, o processo de acentuar o sentido cinestésico. Pois com base nos estudos de GARDNER (1995) a evolução dos movimentos especializados são uma vantagem óbvia para os seres humanos, esta adaptação é ampliada através do uso do corpo. O movimento corporal passa por um programa desenvolvimental claramente definido nas crianças, e não há dúvida de sua universalidade entre as culturas. Assim, parece que o conhecimento corporal-cinestésico satisfaz muito dos critérios de uma inteligência. Neste sentido, a noção de funções psicológicas superiores está intimamente ligada a atividade de mediação e da zona de desenvolvimento proximal, é possível verificar não somente os ciclos já completados, como também as que estão em via de formação, o que permite o delineamento da competência da criança e de suas futuras conquistas, assim como a elaboração de estratégias pedagógicas que auxiliem nesse processo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRACHT,V et alii. Metodologia do Ensino da Educação Física. São Paulo, Coletivo de Autores, Cortez, 1992.
GARDNER, H. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.
____ Estruturas da Mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre, Artes médicas, 1994.
KREBS, R. J. Desenvolvimento Humano: teorias e estudos. Santa Maria, Casa Editorial, 1992.
NANNI, D. Dança Educação: pré-escola à universidade. Rio de Janeiro, Sprint, 1995a.
___ Dança Educação: princípios, métodos e técnicas. Rio de Janeiro, Sprint, 1995b.
ROBATTO, L. Dança em processo: a linguagem indivisível. Bahia, Centro Editorial e Didático, 1994.
SAMPLES, B. Mente Aberta/Mente Integral: uma visão holonômica. São Paulo, Gaia, 1990.
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1989.
___ La imaginación Y el arte en la infancia: ensaio psicologico. Madrid, Akol, 1982.

ESCOLA DA PONTE: ORGANIZAR A ESCOLA PARA A DIVERSIDADE


Prof. José Pacheco
(oito tópicos para uma reflexão)

1. A Escola da Ponte é uma escola de primeira à nona série, onde os alunos e professores permanecem todo o dia, todos aprendendo a serem pessoas mais sábias e mais felizes. Mas, em 1976, era um arquipélago de solidões. Os professores remetiam-se para o isolamento físico e psicológico, em espaços e tempos justapostos. Entregues a si próprios, encerrados no refúgio da sua sala, a sós com os seus alunos, o seu método, os seus manuais, a sua falsa competência multidisciplinar, em horários isolacionistas impostos por uma organização em turnos, como poderiam os professores partilhar, comunicar, desenvolver um projecto comum?


O trabalho escolar era exclusivamente centrado no professor, enformado por manuais iguais para todos, repetição de lições, passividade. As crianças que chegavam à escola com uma cultura diferente da que aí prevalecia eram desfavorecidas pelo não reconhecimento da sua experiência sociocultural. Algumas das crianças que acolhíamos transferiam para a vida escolar os problemas sociais dos bairros pobres onde viviam. Exigiam de nós uma atitude de grande atenção e investimento no domínio afectivo e emocional.


Tomámos, também, consciência de novas e maiores dificuldades. Por exemplo, de que não passa de um grave equívoco a ideia de que se poderá construir uma sociedade de indivíduos personalizados, participantes e democráticos enquanto a escolaridade for concebida como um mero adestramento cognitivo.

Se os pais eram chamados à escola, pedia-se castigo para o filho ou contributos para reparações urgentes. A escola funcionava num velho edifício contíguo a uma lixeira. Nas paredes, cresciam ervas. Os alunos traziam bancos de casa para se sentarem e improvisavam mesas. As poucas carteiras com buraco para o tinteiro ameaçavam desfazer-se. O banheiro estava em ruínas e não tinha porta. Satisfazer as necessidades mais elementares constituía um teste de entreajuda: as alunas iam lá fora em grupos de cinco, ou seis, fazia-se a parede e a porta num círculo humano em torno da necessitada e voltava-se para dentro... As crianças passavam as férias no abandono da rua a sonhar com uma praia inacessível. E, para lhes mitigar a fome, os professores serviam-lhes uma caneca de leite fervido no fogão que trouxeram de casa.

Em 1976, compreendemos que precisávamos mais de interrogações que de certezas. E empreendemos um caminho feito de alguns pequenos êxitos e de muitos erros, dos quais colhemos (e continuaremos a colher) ensinamentos, após termos definido a matriz axiológica de um projecto e objectivos que, ainda hoje, nos orientam: concretizar uma efectiva diversificação das aprendizagens tendo por referência uma política de direitos humanos que garanta as mesmas oportunidades educacionais e de realização pessoal para todos, promover a autonomia e a solidariedade, operar transformações nas estruturas de comunicação e intensificar a colaboração entre instituições e agentes educativos locais.

2. Na Escola da Ponte, como em outros lugares, será indispensável alterar a organização das escolas, interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados. Apesar dos progressos verificados ao nível da teoria (e até mesmo contra eles), subsiste uma realidade que as excepções não conseguem escamotear: no domínio das práticas, o nosso século corre o risco de se completar sem ter conseguido concretizar sequer as propostas do fim do século que o precedeu.

Infelizmente, não vivemos o fim do "século da criança", mas somente o princípio da Escola. Desde há séculos, somos destinatários de mensagens que raramente nos dispomos a decifrar e o que acontece é um regresso cíclico às mesmas grandes interrogações. Todos os movimentos reformadores se assemelham na rejeição do passado, mas a especulação teórica sem caução da prática engendra apenas reformulações de uma utopia sempre por concretizar.

Na Ponte, hoje, apenas restam vestígios da “estrutura tradicional”, que transformámos em caboucos sobre os quais assentámos os andaimes de uma escola que já não é herdeira ou tributária de necessidades do século XIX.

3. Há 30 anos, a educação das crianças ditas com necessidades educativas especiais constituía mais um problema dentro do problema. A colocação de crianças com necessidades específicas junto dos ditos normais não era medida suficiente para se fazer o que recentemente se designa por inclusão. A inclusão não se processaria em abstracto, mas passaria por uma gestão diferente de um mesmo currículo, para que os alunos não interiorizassem incapacidades, para que não se vissem cada vez mais negativamente como alunos e depois como pessoas. Frequentemente, sob o rótulo e o estigma da diferença, priva-se a “criança diferente” (ainda que inconscientemente) de experiências que lhe permitiriam ganhar consciência de si como ser social-com-os-outros.

Hoje, em cada grupo há sempre um aluno “especial”. Se os professores, por qualquer motivo, em determinado momento, não podem acompanhar directamente o trabalho de uma dessas crianças, logo um colega atento se disponibiliza para a ajudar. O Marco era um menino rotulado de filho de pai incógnito. Sofria por não ter um pai como os outros meninos. O André era um menino rotulado de mongolóide. Sofria de “necessidades educativas especiais”, que o isolavam dos outros meninos. Até que, um dia, mudou de escola, foi acolhido num grupo e deixou de ter rótulo. O Marco e os seus amigos já tinham descoberto o valor do trabalho cooperativo. Quando a Ana “foi para outra escola” deixou a Sandrina entregue aos cuidados da Maria do Céu. E o Marco envolvia o André num novelo de atenção que operava milagres no aprender com os outros.


As crianças estavam absorvidas no quotidiano labor de aprender e de aprender a ser. O professor ia passando entre os grupos, disponível para o que fosse preciso. Deteve-se junto àquele, pois havia detectado a presença de estranhos instrumentos mediadores de aprendizagem. Não conteve a curiosidade. Pediu desculpa ao Marco pela interrupção e perguntou que papeis eram aqueles.

“Sabe, professor, ontem estive a ajudar o André a perceber o que era um nome. E ele parece que ficou na mesma...”– respondeu o Marco. “E então?” – insistiu o professor. ” Fui p’ra casa a cismar, a cismar... E pensei em fazer umas fichas e fiz as fichas. Trouxe-as hoje e olhe que o André, agora, parece que já percebeu tudo. Não acha?” O professor não conseguiu articular a resposta. Passou a mão na cabeça do Marco. Voltou as costas ao grupo, porque a verdade é que os homens também choram.

4. São os alunos que decidem. E os professores estão lá, atentos e disponíveis.
Quando compreendemos que cada criança é um ser único e irrepetível, que seria errado imaginar a coincidência de níveis de desenvolvimento, concluímos que não seria inevitável pautar do ritmo dos alunos pelo ritmo de um manual ou pela homogeneização operada pelos planos de aula destinados a um hipotético aluno médio. E avançámos com uma outra organização da escola, uma outra relação entre os vários grupos que constituem a equipa educativa (pais, professores, alunos, pessoal auxiliar), um outro modo de reflectir as práticas.

Passou-se de objectivos de instrução a objectivos mais amplos de educação. Este projecto sugere um modelo de escola que já não é a mera soma de actividades, de tempos lectivos, de professores e alunos justapostos. É uma formação social em que convergem processos de mudança desejada e reflectida, um lugar onde conscientemente se transgride, para libertar a escola de atavismos, para a repensar. Não é um projecto de um professor, mas de uma escola, pois só poderemos falar de projecto quando todos os envolvidos forem efectivamente participantes, quando todos se conhecerem entre si e se reconhecerem em objectivos comuns.

Não há escolas-modelo, mas há referências que poderão ser colhidas neste projecto como em tantos outros anonimamente construídos, cujo intercâmbio urge viabilizar. Nos últimos cinco ou seis anos, outras escolas se acercaram de nós: umas movidas pela curiosidade; outras, por outras boas razões. Poderemos já falar de uma “rede de escolas” ou de uma “fraternidade educativa”.

5. Releve-se o facto de não constarem muitas proibições da lista de direitos e deveres. Este documento, que os próprios alunos propõem, discutem e aprovam é a Magna Carta que lhes permite libertarem-se da tutela dos professores e serem dignos do exercício quotidiano da liberdade na responsabilidade. As nossas crianças não são educadas apenas para a autonomia, mas através dela, nas margens de uma liberdade matizada pela exigência da responsabilidade. Buscamos uma escola de cidadãos indispensável ao entendimento e à prática da Democracia. Procuramos, no mais ínfimo pormenor da relação educativa, formar o cidadão democrático e participativo, o cidadão sensível e solidário, o cidadão fraterno e tolerante.

6. Para exercer a solidariedade é necessário compreendê-la, vivê-la em todo e qualquer momento. Na Ponte, cada criança age como participante solidário de um projecto de preparação para a cidadania no exercício da cidadania. Foi por isso que se constituiu, há cerca de vinte anos, a Assembleia. É por aí que passa a participação das crianças na organização interna da sua escola.

Os miúdos sabem que "a Assembleia é uma coisa importante", que "os alunos e os professores reúnem-se e discutem juntos os problemas da escola", que "aprendemos a respeitar regras e a respeitar-nos uns aos outros e a decidir o que é melhor para todos". Quando uma professora, em plena assembleia, perguntou à Catarina (sete anos de idade) “Quando acontece cidadania?” , a pequena respondeu prontamente: “Acontece sempre”. E, quando a professora insistiu, pedindo que a aluna explicitasse a resposta, esta acrescentou: “É quando eu levanto o braço para pedir a palavra ou pedir ajuda, quando me levanto e arrumo a cadeira sem fazer barulho, quando ajudo os meus colegas no grupo, quando apanho lixo do chão e o deito no caixote do lixo, quando oiço o meu colega com atenção, quando estou na Assembleia...” A Francisca escreveu: “ser cidadão é, acima de tudo, respeitar os outros.”

7. Em 1998, o “Tribunal” foi substituído por uma “Comissão de Ajuda” (por decisão da Assembleia!) com composição e funções muito diferentes. O velho e ineficaz “castigo” foi substituído pelo “ficar a reflectir” e pela ajuda de “fadas orianas” (quem já leu o livrinho da Sophya do Mello Breyner saberá ao que as crianças se referem).

Como o objectivo dos objectivos é fazer das crianças pessoas felizes, foi instituída uma ”caixinha dos segredos”. É aí que a pesquisa das almas inquietas (indisciplinadas?) começa. Na caixa de papelão, os alunos deixam recados, cartas, pedidos de ajuda. A “caixinha dos segredos” ensina os professores a reaprender. É que nem sempre o que parece ser “indisciplina” o é. Os “recados-segredos” provam-no: “Todas as manhãs, o Arnaldo já chega cansado de duas horas de trabalho. Antes de rumar à escola, o Rui foi ao lavrador buscar o leite, levou os irmãos mais pequenos ao infantário, fez os recados da Dona Alice, arrumou a casa toda. O Carlos falta quase todas as tardes. O pai manda-o distribuir por toda a vila as folhas que dão notícia dos falecimentos da véspera, ou tem que carregar as alfaias dos funerais”.
O tempo amareleceu as folhas dos “recados” onde as crianças deixaram ficar pedaços de vida. Aos nove anos, o Fernando disse o que queria ser quando fosse grande, escreveu os projectos do seu futuro para sempre destruídos num estúpido acidente na mota que ele comprara com os primeiros salários de tecelão. Outros não chegaram a adultos por se deixarem envolver nas teias que a droga tece. Houve também quem abandonasse a escola e optasse pelas lições que a escola da vida oferece. Haverá ainda alguém que ouse falar de “indisciplina” nas escolas?

Sabemos de crianças que dão lições de autodisciplina na sua escola. Sei de crianças que não entendem a indisciplina do gritar mais alto que o próximo, nas assembleias de adultos, porque na sua assembleia semanal erguem o braço quando pretendem intervir. Sei de crianças de seis, sete anos, que sabem falar e calar, propor e acatar decisões. São crianças capazes de expor, com serenidade, conflitos e de, serenamente, encontrar soluções. São cidadãos de tenra idade que, no exercício de uma liberdade responsavelmente assumida, instituíram regras que fazem cumprir no seu quotidiano. Poderão continuar a chamar-lhes alunos “utópicos”, que nem por isso eles deixarão de existir.

8. A concepção e desenvolvimento de um projecto educativo de escola é um acto colectivo e só tem sentido no quadro de um projecto local de desenvolvimento. Um projecto consubstanciado numa lógica comunitária pressupõe ainda uma profunda transformação cultural. O sucesso dos alunos depende da solidariedade exercida no seio de equipas educativas, que facilita a compreensão e a resolução de problemas comuns.

Em 1976, os pais não apareciam na escola, mas acreditávamos que seria possível estabelecer comunicação com as famílias dos alunos, se os pais não fossem chamados apenas para escutarem queixas ou contribuírem para reparações urgentes. Questionávamo-nos por que razão eles iam à igreja, ao estádio, ao café... e não vinham à escola. Quando encontrámos resposta, ajudámos os pais dos alunos a fundar uma associação num tempo em que ainda não havia leis para as regular. A associação de pais é hoje um interlocutor sempre disponível, um parceiro indispensável. Mas a colaboração dos pais não se restringe às actividades promovidas pela sua associação. No início de cada ano, todos os encarregados de educação participam num encontro de apresentação do Plano Anual. Mensalmente, ao sábado de tarde, os projectos são avaliados com o seu contributo. E há sempre um professor disponível para o atendimento diário, se algum pai o solicita.

A prática diz-nos, ainda hoje, que os pais têm dificuldade em conceber uma escola diferente daquela que frequentaram quando alunos mas que, quando esclarecidos e conscientes, aderem e colaboram.

ONZE FATORES PRESENTES NAS ESCOLAS EFICAZES


Onze fatores presentes nas escolas eficazes
Prof. José Pacheco
Liderança profissional
Firme e positivo
Enfoque participativo
Profissional destacado
Visão e metas compartilhadas
Coerência nos objectivos
Consistência da prática
Colegialidade e colaboração
Um ambiente favorável à aprendizagem
Ambiente tranquilo
Um ambiente de trabalho atractivo
Concretização no ensino e na aprendizagem
Bom uso do tempo de aprendizagem
Ênfase académico
Orientação do sucesso
Expectativas elevadas
Altas expectativas generalizadas
Expectativas comunicadas
Proporcionar objectivos intelectuais
Regras
Disciplina clara e justa
Uso da democracia na resolução de conflitos
Retroalimentação
Seguimento do progresso
Seguimento da acção dos alunos
Avaliação respeitando os diferentes ritmos
Avaliação dos resultados da escola
Direitos e responsabilidades dos alunos
Alunos com elevada auto-estima
Posições de responsabilidades
Controlo do trabalho
Ensino intencional
Organização eficiente
Clareza dos objectivos
Lições estruturadas
Prática adaptada
Aprendizagem cooperativa
Uma organização para a aprendizagem
Papel dos professores baseado na escola
Cooperação família- escola
Implicação dos pais