Prof. José Pacheco
«(...) é que para mudar alguma coisa é preciso esperar que a cultura mude. O que conduz tanto ao conservadorismo como a tentativas absurdas de mudar a cultura ou a vida.
De facto, a experiência mostra que as rupturas podem dar resultados fora de mudanças de cultura. A cultura prossegue. Fabrica-se a partir daquilo que os homens vivem, e mudanças na sua vivência podem ser essenciais.» (70)
«(...) trata-se da aprendizagem colectiva e se existe uma relação estreita com a aprendizagem individual, uma e outra não são a mesma coisa» (70)
«(...) a maior parte das mudanças sociais acontecem sem que sejamos verdadeiramente responsáveis pelo que acontece, mas para as compreender é interessante passar pelo artificial» (71)
« Uma mudança não pode desenvolver-se e fixar-se senão na medida em que as relações humanas se transformem. Mas as relações humanas não se transformam porque existe uma condição material que muda.(...) Mudam na medida em que os homens são capazes de se organizar num jogo de relações diferente daquele em que operavam antes. E existe por trás disto o desenvolvimento de uma capacidade colectiva.» (71)
«As capacidades colectivas, com efeito, são fruto de um desenvolvimento anterior, são um produto social, um produto dos homens e qualquer coisa que não é simples, que não é dada, e foi necessário muito tempo para lá chegar. Temos pois este paradoxo: o produto social é um obstáculo para a aprendizagem, porque é preciso reordenar o sistema, mas ao mesmo tempo é um ponto de partida porque não poderá fazer qualquer coisa de novo sem se tirar partido do que se fez anteriormente.» (71/2)
«Existem pessoas que têm interesse em que as coisas mudem. Mas, se numa dada perspectiva isso é verdade, esse não é o problema fundamental da mudança (...) do desenvolvimento de um novo jogo com novas capacidades dos homens. De facto, surgem com bastante frequência, pessoas que tinham a beneficiar com a mudança e acabam finalmente por se oporem, porque não têm capacidade de tirar partido do novo jogo» (72)
« (...) as mudanças dirigidas aparecem frequentemente como fracassos (...) porque o esforço não é feito sobre os pontos sensíveis do sistema, com vista à reconstrução de qualquer coisa de mais aberto, de mais justo, de mais eficaz.» (73)
«As tentativas de mudança são elaboradas sem uma visão penetrante, realista e prática. Vai-se reconstruir o conjunto a partir de princípios que deveriam ser postos em prática e não a partir de um conhecimento da prática das relações humanas em causa. Analisam-se de forma exaustiva aspectos materiais (...)»(73)
«Temos então um sistema que se desenvolve, posto em execução a partir de uma visão teórica, visão que apenas recebe da prática uma contribuição muito indirecta, isto é, uma contribuição confusa e de qualidade inferior» (74)
«E, se existe poder, procura-se perseguir os executantes para que obedeçam aos princípios e torna-se obrigação persegui-los, porque os princípios são de tal modo claros, de tal modo evidentes na sua coerência, que quem não os aplicar está em falta – representa o mal.» (74)
«(...) para acertar, é preciso então efectuar as transformações que ajudem a tornarem-se diferentes, a terem melhores relações e, eventualmente, se necessário, a serem mais eficazes» (73/4).
«O objectivo é agir com o sistema e não contra o sistema. Para agir com o sistema é preciso em primeiro lugar compreendê-lo. Ora, o que acontece em todos ou quase todos os casos, é que se conhece mal aquilo sobre que se vai agir (...) não se conhece o sistema humano» (75)
«Numa pequena organização, se o dirigente é extremamente intuitivo, consegue manter-se, mas quando a organização se torna importante, não sobrevive.» (76)
«Não se consegue avançar senão através de uma acção paciente, de muito tempo e esforço. Os responsáveis são capazes de aceitar outras ideias, o que é fundamental para o futuro, mas é preciso dar-lhes tempo e liberdade. Deve-se fazer um investimento. Naturalmente, é necessário que este investimento seja apoiado por pessoas que o compreendam» (76)
«(...) o que traz o conhecimento é a descoberta das regulações essenciais de um sistema e quando se conhecem estas regulações apercebemo-nos de que mudanças relativamente fracas, que custam relativamente pouco, podem ter consequências muito importantes, enquanto que mudanças espectaculares não têm nenhuma importância (...) o custo da mudança poderá ser muito mais pequeno do que se pensa, se esta for bem dirigida. Pelo contrário a mudança mal dirigida custa de tal modo caro que ninguém a pode pagar. Quando se pretende impor qualquer coisa contra o sistema humano, nunca mais se acaba pois os homens têm uma capacidade de imaginação prática inacreditável; como consequência vai ser necessário destruir progressivamente as suas pequenas estratégias defensivas, desenvolver a regulamentação cada vez mais, o que dá resultados cada vez mais caros (...)» (76/7)
«Temos necessidade de reflectir mais profundamente na relação entre os iniciadores da mudança e os participantes na mudança, que é uma relação indispensável, que é uma relação de negociação e, em geral, de negociação implícita. A negociação é indispensável, porque nunca se acertará suficientemente; os homens vão transformar a possibilidade de mudança pretendida em função dos seus próprios problemas e existirá pois desvio.» (77/8)
«(...) as motivações são muito menos importantes do que a realidade e o comportamento e, se e pretende agir, é desenvolvendo a capacidade dos homens que se obterá êxito, muito mais do que mudando as motivações (...) as pessoas podem aceitar mais facilmente que as ajudem a desenvolver as suas capacidades individuais» (78)
«(...) fizeram um bom diagnóstico sobre o sistema, e por outro fizeram uma boa aposta, uma espécie de diagnóstico intuitivo sobre a sua própria margem de liberdade como actores. Não basta ter uma boa ideia, é preciso saber o que se pode fazer, quais são os seus próprios limites.» (79)
«(...) consiste em efectuar mudanças em função das consequências que se verificaram ou que se prevêem. A tentativa de negociação de que falei atrás é também de todo essencial» (80)
«(...) para podermos subsistir no mundo que conhecemos, é preciso transformar as nossas práticas económicas e, a partir daí, as nossas práticas sociais. (...) É pois necessário reflectir, é necessário investir nas capacidades a mudar, nas capacidades colectivas (...)
O importante para nós é o método, o desenvolvimento das capacidades, mais do que a substância. Apesar das aparências, a substância importa muito menos do que a capacidade de mudar, o que vai permitir aos homens serem mais livres para decidirem, eles próprios, da substância da mudança» (81)
Meier, M. (1981). «Mudança individual e mudança colectiva» in Barroso, A. F., Matos Silva, B., Vala, J., Monteiro, M.B. e Catarro, M.H. (org.). Mudança Social e Psicologia Social. Lisboa: Livros Horizonte)
«(...) é que para mudar alguma coisa é preciso esperar que a cultura mude. O que conduz tanto ao conservadorismo como a tentativas absurdas de mudar a cultura ou a vida.
De facto, a experiência mostra que as rupturas podem dar resultados fora de mudanças de cultura. A cultura prossegue. Fabrica-se a partir daquilo que os homens vivem, e mudanças na sua vivência podem ser essenciais.» (70)
«(...) trata-se da aprendizagem colectiva e se existe uma relação estreita com a aprendizagem individual, uma e outra não são a mesma coisa» (70)
«(...) a maior parte das mudanças sociais acontecem sem que sejamos verdadeiramente responsáveis pelo que acontece, mas para as compreender é interessante passar pelo artificial» (71)
« Uma mudança não pode desenvolver-se e fixar-se senão na medida em que as relações humanas se transformem. Mas as relações humanas não se transformam porque existe uma condição material que muda.(...) Mudam na medida em que os homens são capazes de se organizar num jogo de relações diferente daquele em que operavam antes. E existe por trás disto o desenvolvimento de uma capacidade colectiva.» (71)
«As capacidades colectivas, com efeito, são fruto de um desenvolvimento anterior, são um produto social, um produto dos homens e qualquer coisa que não é simples, que não é dada, e foi necessário muito tempo para lá chegar. Temos pois este paradoxo: o produto social é um obstáculo para a aprendizagem, porque é preciso reordenar o sistema, mas ao mesmo tempo é um ponto de partida porque não poderá fazer qualquer coisa de novo sem se tirar partido do que se fez anteriormente.» (71/2)
«Existem pessoas que têm interesse em que as coisas mudem. Mas, se numa dada perspectiva isso é verdade, esse não é o problema fundamental da mudança (...) do desenvolvimento de um novo jogo com novas capacidades dos homens. De facto, surgem com bastante frequência, pessoas que tinham a beneficiar com a mudança e acabam finalmente por se oporem, porque não têm capacidade de tirar partido do novo jogo» (72)
« (...) as mudanças dirigidas aparecem frequentemente como fracassos (...) porque o esforço não é feito sobre os pontos sensíveis do sistema, com vista à reconstrução de qualquer coisa de mais aberto, de mais justo, de mais eficaz.» (73)
«As tentativas de mudança são elaboradas sem uma visão penetrante, realista e prática. Vai-se reconstruir o conjunto a partir de princípios que deveriam ser postos em prática e não a partir de um conhecimento da prática das relações humanas em causa. Analisam-se de forma exaustiva aspectos materiais (...)»(73)
«Temos então um sistema que se desenvolve, posto em execução a partir de uma visão teórica, visão que apenas recebe da prática uma contribuição muito indirecta, isto é, uma contribuição confusa e de qualidade inferior» (74)
«E, se existe poder, procura-se perseguir os executantes para que obedeçam aos princípios e torna-se obrigação persegui-los, porque os princípios são de tal modo claros, de tal modo evidentes na sua coerência, que quem não os aplicar está em falta – representa o mal.» (74)
«(...) para acertar, é preciso então efectuar as transformações que ajudem a tornarem-se diferentes, a terem melhores relações e, eventualmente, se necessário, a serem mais eficazes» (73/4).
«O objectivo é agir com o sistema e não contra o sistema. Para agir com o sistema é preciso em primeiro lugar compreendê-lo. Ora, o que acontece em todos ou quase todos os casos, é que se conhece mal aquilo sobre que se vai agir (...) não se conhece o sistema humano» (75)
«Numa pequena organização, se o dirigente é extremamente intuitivo, consegue manter-se, mas quando a organização se torna importante, não sobrevive.» (76)
«Não se consegue avançar senão através de uma acção paciente, de muito tempo e esforço. Os responsáveis são capazes de aceitar outras ideias, o que é fundamental para o futuro, mas é preciso dar-lhes tempo e liberdade. Deve-se fazer um investimento. Naturalmente, é necessário que este investimento seja apoiado por pessoas que o compreendam» (76)
«(...) o que traz o conhecimento é a descoberta das regulações essenciais de um sistema e quando se conhecem estas regulações apercebemo-nos de que mudanças relativamente fracas, que custam relativamente pouco, podem ter consequências muito importantes, enquanto que mudanças espectaculares não têm nenhuma importância (...) o custo da mudança poderá ser muito mais pequeno do que se pensa, se esta for bem dirigida. Pelo contrário a mudança mal dirigida custa de tal modo caro que ninguém a pode pagar. Quando se pretende impor qualquer coisa contra o sistema humano, nunca mais se acaba pois os homens têm uma capacidade de imaginação prática inacreditável; como consequência vai ser necessário destruir progressivamente as suas pequenas estratégias defensivas, desenvolver a regulamentação cada vez mais, o que dá resultados cada vez mais caros (...)» (76/7)
«Temos necessidade de reflectir mais profundamente na relação entre os iniciadores da mudança e os participantes na mudança, que é uma relação indispensável, que é uma relação de negociação e, em geral, de negociação implícita. A negociação é indispensável, porque nunca se acertará suficientemente; os homens vão transformar a possibilidade de mudança pretendida em função dos seus próprios problemas e existirá pois desvio.» (77/8)
«(...) as motivações são muito menos importantes do que a realidade e o comportamento e, se e pretende agir, é desenvolvendo a capacidade dos homens que se obterá êxito, muito mais do que mudando as motivações (...) as pessoas podem aceitar mais facilmente que as ajudem a desenvolver as suas capacidades individuais» (78)
«(...) fizeram um bom diagnóstico sobre o sistema, e por outro fizeram uma boa aposta, uma espécie de diagnóstico intuitivo sobre a sua própria margem de liberdade como actores. Não basta ter uma boa ideia, é preciso saber o que se pode fazer, quais são os seus próprios limites.» (79)
«(...) consiste em efectuar mudanças em função das consequências que se verificaram ou que se prevêem. A tentativa de negociação de que falei atrás é também de todo essencial» (80)
«(...) para podermos subsistir no mundo que conhecemos, é preciso transformar as nossas práticas económicas e, a partir daí, as nossas práticas sociais. (...) É pois necessário reflectir, é necessário investir nas capacidades a mudar, nas capacidades colectivas (...)
O importante para nós é o método, o desenvolvimento das capacidades, mais do que a substância. Apesar das aparências, a substância importa muito menos do que a capacidade de mudar, o que vai permitir aos homens serem mais livres para decidirem, eles próprios, da substância da mudança» (81)
Meier, M. (1981). «Mudança individual e mudança colectiva» in Barroso, A. F., Matos Silva, B., Vala, J., Monteiro, M.B. e Catarro, M.H. (org.). Mudança Social e Psicologia Social. Lisboa: Livros Horizonte)








